
Vanessa, Taís e Sirlei viveram uma jornada de fé e superação que inspira outras mulheres a se permitirem experiências transformadoras, mesmo com medo e limitações
Sirlei Biasoli sempre ouviu falar sobre o Caminho de Santiago. Mas a vontade real de embarcar nessa jornada nasceu quando uma amiga voltou da experiência contando tudo o que viveu.
“Aquilo me despertou uma vontade. Convidei a Vanessa, minha filha, e conseguimos conciliar nossas rotinas para ir”, conta Sirlei.
À dupla se juntou Taís Tâmara, sobrinha de Sirlei, também apaixonada por aventuras e desafios.
Vanessa saiu de casa aos 16 anos para fazer faculdade. Hoje, aos 32, mãe e filha têm pouco tempo juntas.
“Ao longo desses anos, nossos encontros foram sempre nas férias ou feriados. Eu queria viver esse momento com ela. Ter essa conexão.”
Sem saber exatamente o que esperar, elas partiram com o coração aberto e foco no propósito.
“Sabíamos que enfrentaríamos desafios, dificuldades, que teríamos que abrir mão de alguns confortos pra viver a experiência do jeito que planejamos. Mas, espiritualmente falando, o que eu esperava era me conectar com Deus e estar de coração aberto para receber o que o Caminho iria me entregar.”
A preparação levou cerca de oito meses, com treinos, caminhadas longas e fortalecimento muscular.
“Começamos a caminhar 10 quilômetros uma vez por semana. Depois fomos aumentando. Também fizemos fortalecimento das pernas três vezes por semana”, conta Sirlei.

A preparação
Elas escolheram o Caminho Português Central: 250 km entre o Porto, em Portugal, e Santiago de Compostela, na Espanha, em 10 dias.
A rotina era simples e exigente: acordar às 5h, preparar os lanches, alongar, fazer uma oração e começar a caminhada às 6h30.
As pausas vinham a cada hora, para aliviar os pés e descansar da mochila. À tarde, banho, lavar as roupas, descanso e um passeio pela cidade ou vilarejo onde estavam. Sempre dormiam cedo.
“É incrível como o corpo se adapta. A mochila parecia pesada no início, mas depois já fazia parte de nós”, lembra Sirlei.
Encontros, dores e superações
Segundo Sirlei, a caminhada é física, mas o que mais marca são os encontros
“A experiência não é sobre caminhar, nem sobre chegar. É sobre viver. Encontramos muitos brasileiros por lá, mas também conhecemos pessoas do mundo inteiro. Às vezes nem falávamos a mesma língua, mas sempre dávamos um jeito de nos entender.”
Ao longo dos dias, esses encontros se tornaram parte essencial da experiência. Além das novas amizades,havia reencontros que emocionavam.
“Algumas pessoas já estava na quinta ou sexta caminhada e nos passava ensinamentos que levamos conosco. Como o percurso é feito em etapas, era comum reencontrarmos nos albergues os amigos que fizemos nos dias anteriores. E isso era sempre uma alegria e uma comemoração pela vitória de cada um ter conseguido chegar até ali”, lembra Vanessa.
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O trio percebeu, na prática, que o Caminho reflete a vida: apresenta os desafios e também oferece os meios para superá-los. Logo no primeiro dia, Vanessa teve uma contratura na panturrilha, mas o corpo se adaptou com o tempo.
“O corpo responde. O Caminho mostra o desafio e ensina como superar”, diz Vanessa.
Ao longo do percurso, a troca entre peregrinos foi constante.
“Alguns nos emprestaram creme para massagem, nós emprestamos remédios, ajudamos a cuidar das bolhas”, conta Sirlei.
Vanessa, que é fisioterapeuta, cuidou de outros caminhantes inclusive de Taís.
“A Vanessa ajudou muita gente. Minha sobrinha Taís, que foi conosco, também teve dores. Mas seguimos. Com fé, acolhimento e força.”
Paisagens que emocionam
Foram muitas as imagens que marcaram a jornada: um bosque coberto de copos-de-leite, as cidades pequenas no interior de Portugal, a travessia da ponte entre Valença do Minho e Tui, já na Espanha. E a subida da Labrurra — difícil, mas cheia de beleza.
Vanessa lembra que nada se compara ao momento da chegada.
“É uma mistura de alegria e saudade. Você quer chegar, mas também não quer que acabe. Sentamos na frente da Catedral, como fazem os peregrinos, e ficamos ali vendo gente chegar, comemorando, se abraçando. Foi emocionante.”
Sirlei completa: “A ansiedade por chegar e conhecer a tão esperada Catedral, a felicidade por termos conseguido concluir o Caminho, mas ao mesmo tempo já sentindo falta de tudo o que vivemos até aquele momento.”

Caminho seguro
Uma das maiores preocupações de quem pensa em fazer o Caminho é a segurança. Sirlei tranquiliza: “O Caminho é seguro!”
“Sempre caminhamos em três, mas também vimos muitas mulheres que faziam a jornada sozinhas.”
Ela destaca que o trajeto é bem sinalizado e que existem aplicativos que ajudam na localização e oferecem informações importantes.
“Não tivemos nenhuma situação que nos deixou com medo ou preocupadas, seja durante a caminhada ou nos albergues.”
Mas ela valoriza a companhia: “Adorei ter pessoas para conversar durante o dia, para dividir o peso e também para me sentir segura. Mas o que mais fez diferença foi viver tudo isso ao lado da minha filha.”

A estrada que atravessa sentimentos
Ao falar sobre os medos que muitas mulheres têm antes de encarar o Caminho de Santiago, Sirlei é direta: “A limitação está na sua cabeça!”
“Encontramos mães com carrinhos e crianças pequenas, idosos com mais de 70 anos, pessoas com dores, dificuldades e bolhas.”
Para ela, preparar o corpo fisicamente é fundamental para facilitar a caminhada.
“Se você sente insegurança, busque companhia, pesquise sobre o percurso, converse com outros peregrinos e reúna o máximo de informações para se sentir segura. Mas não deixe de viver essa experiência por medo. O Caminho nos chama na hora certa, com as pessoas certas.”
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O conselho dela é simples e profundo: “Vá de coração aberto para receber tudo o que vai experienciar por lá.”
No fim, o que fica não é a quilometragem, mas o que se transforma por dentro.
“Repetiríamos com certeza. Existem vários caminhos. O importante é ir. E se tem medo, vai com medo mesmo. Mas vá”, aconselha Vanessa.
Se essa experiência pudesse ser resumida em uma frase, para esse trio é: “O Caminho de Santiago não se faz. Se vive.”
O que elas levaram na mochila?
A dica das três é clara: leve só o essencial. “O ideal é carregar no máximo 10% do peso corporal.”
Na mochila, elas levaram:
- 1 jaqueta impermeável
- 2 calças
- 4 camisetas (3 curtas e 1 longa)
- 1 pijama
- 1 short
- 4 roupas íntimas
- 2 tops
- 4 pares de meia para trekking
- Produtos de higiene pessoal
- Toalha de microfibra
- 1 fronha de travesseiro
- Saco de dormir
- 1 tênis de caminhada
- 1 chinelo
- 1 bota de caminhada
Dicas importantes para quem quer fazer o Caminho de Santiago
- Escolha o caminho que combina com você
Existem várias rotas possíveis. O Caminho Francês é o mais tradicional, mas o Caminho Português tem paisagens lindas e etapas mais curtas. - Prepare o corpo com antecedência
Caminhadas longas e fortalecimento muscular ajudam a prevenir dores e lesões. - Use o calçado certo – e com antecedência
Compre a bota de caminhada meses antes e use nos treinos. Dica de ouro: vaselina nos pés todos os dias. - Leve o essencial, nada mais
Mochila leve faz diferença. Invista em roupas que secam rápido e itens compactos. - Respeite o seu ritmo
Faça pausas, descanse e não se compare. O seu tempo é o certo. - Use aplicativos e aproveite a sinalização
Apps ajudam a localizar albergues, planejar etapas e se orientar. - Esteja aberta emocionalmente
Você vai sentir de tudo: cansaço, alegria, saudade, conexão. Deixe acontecer. - Leve lanches leves
Sanduíche, fruta ou barra de proteína são essenciais para manter a energia. - Ajude e aceite ajuda
Trocas fazem parte do espírito do Caminho. - É seguro para mulheres
Se for a primeira vez, vá acompanhada pela segurança e pela partilha.
O que é o Caminho de Santiago de Compostela?
O Caminho de Santiago é uma rota de peregrinação milenar, feita desde o século 9, quando surgiram relatos de que os restos do apóstolo São Tiago (Santiago) teriam sido encontrados em Compostela, no norte da Espanha. Desde então, milhares de peregrinos percorrem a Europa todos os anos rumo à Catedral de Santiago de Compostela, onde está o túmulo do santo.
Hoje, o Caminho é feito por motivos religiosos, espirituais, de autoconhecimento ou mesmo superação física e emocional.
Principais rotas:
- Caminho Francês – cerca de 780 km, saindo de Saint-Jean-Pied-de-Port, na França
- Caminho Português Central – cerca de 250 km, saindo do Porto
- Caminho da Costa – aproximadamente 280 km, também saindo do Porto
- Caminho do Norte – quase 825 km, acompanhando o mar Cantábrico
- Caminho Primitivo – cerca de 320 km, saindo de Oviedo, na Espanha
Cada trajeto oferece uma vivência diferente. A escolha depende do preparo, do tempo disponível e da intenção de quem caminha.





