
Sobrecarga, autocobrança e culpa aparecem entre os principais fatores de sofrimento emocional feminino, segundo a psicóloga clínica Amanda Lopes
Nos consultórios de psicologia, uma queixa tem se repetido entre mulheres de diferentes idades: o cansaço que não passa. Não se trata apenas de exaustão física, mas de um desgaste emocional profundo, construído no acúmulo de responsabilidades, na dificuldade de impor limites e na constante sensação de estar sempre devendo algo.
Para a Amanda Lopes, psicóloga clínica e pós-graduanda em Terapias Cognitivo-Comportamentais Contextuais pela PUC/PR, esse sofrimento tem raízes que vão além das experiências individuais. Ele é atravessado por aprendizados culturais que moldam, desde cedo, a forma como as mulheres se relaciona consigo mesmas e com os outros.
“Desde a época da escola, sempre me interessei pelos direitos das mulheres e por suas lutas. As histórias das mulheres da minha família também me impulsionaram a seguir nesse contexto”, explica.
Hoje, Amanda atua exclusivamente com atendimentos on-line e dedica sua prática ao acompanhamento psicológico de mulheres em diferentes fases da vida.
Autocobrança, ansiedade e dificuldade de limites
Segundo a psicóloga, a busca por psicoterapia tem crescido, principalmente, em função da autocobrança excessiva, da sobrecarga de responsabilidades e das dificuldades em estabelecer limites nas relações.
“A procura por atendimento acontece, sobretudo, por fatores ligados ao estresse, à ansiedade e à depressão, que muitas vezes caminham junto com a sensação de que nunca é possível parar”, afirma.
Embora não exista um padrão único de sofrimento emocional feminino, Amanda observa que há elementos culturais que se repetem.
“Muitas mulheres aprendem desde cedo a se responsabilizar pelo bem-estar dos outros, a manter tudo funcionando e a dar conta de múltiplos papéis. Isso costuma gerar culpa ao descansar, dizer ‘não’ ou falhar.”
A sobrecarga emocional invisível
A sobrecarga emocional segue sendo, segundo a psicóloga, um dos principais fatores de adoecimento das mulheres. E ela nem sempre é visível.
“Ela aparece no acúmulo de responsabilidades, muitas vezes invisíveis, como o cuidado com a casa, com os filhos, com familiares, com o trabalho e com as relações”, explica.
Além disso, muitas mulheres assumem também a gestão emocional desses contextos.
“É comum se sentirem responsáveis não só pelas tarefas, mas pelo clima emocional dos ambientes, mediando conflitos, acolhendo e sustentando vínculos.”
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No cotidiano, esse excesso se manifesta de formas conhecidas, mas frequentemente ignoradas: cansaço constante, irritabilidade, dificuldade de descansar sem culpa, ansiedade e sintomas depressivos.
“Mesmo quando param, muitas relatam que a mente continua funcionando, antecipando demandas e preocupações.”
Culpa e autocobrança como reguladores do comportamento
No consultório, culpa e autocobrança aparecem como temas centrais. Para Amanda, elas atuam como mecanismos que regulam o comportamento feminino.
“Elas mantêm a mulher em constante vigilância sobre si mesma, fazendo com que qualquer pausa, erro ou escolha pessoal seja vivida como falha moral”, explica.
Esse funcionamento gera um estado contínuo de tensão interna, dificulta decisões alinhadas às próprias necessidades e fragiliza a relação consigo mesma.
Com o tempo, esse desgaste aumenta a vulnerabilidade ao adoecimento emocional.
Por que tantas mulheres seguem funcionando, mesmo cansadas?
A resposta, segundo a psicóloga, passa por aprendizados antigos e por uma validação social do excesso.
“As mulheres aprendem a se colocar em segundo plano para manter tudo funcionando. São incentivadas a serem fortes, responsáveis, disponíveis e a não ‘dar trabalho’”, afirma.
Nesse contexto, o cansaço emocional é silenciado e normalizado.
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Além disso, a produtividade excessiva costuma ser vista como valor. “Dar conta de tudo vira sinônimo de reconhecimento. Muitas seguem funcionando no automático, mesmo esgotadas, até que o corpo ou a saúde emocional imponham um limite.”
Cuidados possíveis para proteger a saúde emocional
Para Amanda Lopes, cuidar da saúde emocional feminina passa por mudanças práticas e possíveis no dia a dia. Entre elas estão o reconhecimento dos próprios limites, a redução da autocobrança e a construção de limites mais claros nas relações, sem culpa.
“Descanso não pode ser visto como recompensa, mas como necessidade”, destaca.
Buscar apoio também é fundamental. “Seja por meio da psicoterapia, de vínculos seguros ou da divisão de responsabilidades, o apoio é uma forma importante de prevenir o adoecimento emocional.”
Mais do que dar conta de tudo, o cuidado emocional começa quando a mulher passa a se escutar e se autoriza a não sustentar o mundo sozinha.




