Em meio ao avanço da ansiedade no Brasil, neurocientista Anaclaudia Zani explica por que esperar a crise passar pode intensificar sintomas da ansiedade

Em um ano marcado por recordes de afastamentos do trabalho por transtornos de ansiedade, um comportamento comum durante as crises chama a atenção de especialistas: ficar parado esperando que tudo passe.

Para a psicóloga e neurocientista Anaclaudia Zani, essa atitude pode agravar ainda mais os sintomas.

Dados do Ministério da Previdência Social mostram que o Brasil registrou 472 mil afastamentos por ansiedade, um aumento de 68% em relação a 2023. Diante desse cenário, Anaclaudia alerta para o impacto da chamada espera passiva.

 “Muitas pessoas ficam paralisadas esperando que a ansiedade passe sozinha, mas o cérebro precisa de ação. Pequenos movimentos, como caminhar alguns passos, lavar o rosto com água fria ou fazer alongamentos, interrompem o ciclo fisiológico da ansiedade”, explica.

Como a ansiedade funciona no cérebro

Segundo a especialista, a ansiedade é um mecanismo de antecipação.

“Ela nos faz ansiar por algo que ainda não aconteceu, criando uma resposta emocional desproporcional ao evento real”, afirma.

Quando o corpo permanece imóvel durante a crise, o estado de alerta se prolonga, favorecendo sintomas como taquicardia, falta de ar e aperto no peito.

“Quando propomos técnicas que interrompem esse ciclo, estamos literalmente treinando o cérebro a racionalizar as emoções antes que elas dominem o corpo.”

Três técnicas que ajudam a interromper crises

Entre as estratégias mais eficazes, a neurocientista destaca práticas simples, possíveis de serem feitas no momento da crise.

1. Método sensorial 5-4-3-2-1

O exercício ajuda a ancorar a mente no presente. A pessoa identifica cinco coisas que vê, quatro que toca, três que escuta, duas que cheira e uma que saboreia.

“Essa técnica tira o foco das preocupações futuras e devolve o controle consciente”, orienta.

2. Nomear a emoção

“O simples ato de identificar e verbalizar o que você está sentindo já reduz a intensidade da resposta emocional. Nosso cérebro responde melhor quando consegue categorizar o que está acontecendo”, explica Anaclaudia.

3. Controle da respiração

Respirações profundas e controladas ativam o sistema nervoso parassimpático, responsável pelo relaxamento. Isso ajuda a reduzir a frequência cardíaca e a sensação de aperto no peito.

O contexto da saúde mental no Brasil

Segundo a Organização Mundial da Saúde, o Brasil tem a população mais ansiosa do mundo, com 9,3% dos brasileiros sofrendo de transtorno de ansiedade patológica. Após a pandemia, a própria OMS apontou aumento global de 25% nos casos de ansiedade e depressão.

Dados da Associação Nacional de Medicina do Trabalho indicam ainda que 30% dos trabalhadores brasileiros relatam sintomas de burnout, evidenciando uma crise de acesso a suporte emocional qualificado no país.

Para Anaclaudia, ampliar a conscientização é urgente.

“A maioria dos brasileiros sofre em silêncio porque não sabe como agir no momento da crise. Entender que o cérebro precisa de ação, não de espera, pode fazer diferença imediata na qualidade de vida”, afirma.

Tecnologia como ponte de acesso emocional

Diante da dificuldade de acesso a acompanhamento psicológico, Anaclaudia desenvolveu a Mentora Virtual, ferramenta de inteligência artificial voltada à organização emocional cotidiana.

A tecnologia funciona por meio de perguntas estruturadas que ajudam o usuário a identificar padrões de pensamento e reorganizar emoções em situações de ansiedade, conflito ou sobrecarga.

::: Veja mais >>> Amanda Veras compartilha 5 lições para fortalecer a fé em 2026

Dados da plataforma EITA mostram que 51% das interações envolvem angústia, ansiedade ou sofrimento psicológico. Questões de relacionamento representam 24,6% das conversas, enquanto carreira aparece em 19,4%.

“Esses números mostram que a maior demanda emocional do país está no campo da organização afetiva cotidiana, não apenas em crises clínicas graves”, explica.

Segundo ela, a tecnologia não substitui o atendimento psicológico tradicional, mas oferece suporte imediato, com mecanismos que evitam uso excessivo e dependência.

Anaclaudia é criadora do Método InLuc

Anaclaudia Zani Ramos é psicóloga, neurocientista e pesquisadora em Neurociência e Desenvolvimento Humano há 25 anos.

Criadora do Método InLuc, reconhecido em congressos internacionais, atua com neurociência aplicada a mudanças comportamentais mensuráveis. Trabalha com executivos de empresas como Google e Meta, além de atletas profissionais.

É palestrante, escritora e fundadora da startup EITA, plataforma de apoio emocional em tempo real que recentemente captou R$ 1 milhão em rodada angel.