
Muito antes das heroínas do cinema atual, séries dos anos 70 colocaram mulheres no centro da ação e ampliaram os limites do protagonismo feminino na televisão.
Houve um tempo na televisão em que o papel da mulher em situações de perigo se resumia a duas ações: gritar por socorro ou tropeçar enquanto fugia.
O heroísmo era quase sempre um território masculino. No entanto, em meados da década de 1970, essa lógica começou a mudar no horário nobre. Em um curto intervalo de tempo, entre 1975 e 1976, o público passou a acompanhar mulheres que não precisavam ser salvas. Elas eram as responsáveis por salvar o dia.
Lynda Carter, Lindsay Wagner e o trio original de As Panteras, formado por Farrah Fawcett, Kate Jackson e Jaclyn Smith, não apenas estrelaram séries de sucesso. Elas ajudaram a redefinir o que significava ser uma protagonista feminina na cultura pop.
Esta reportagem revisita o legado dessas personagens e analisa como suas trajetórias refletiram, e em alguns momentos desafiaram, a sociedade da época.
O giro que mudou tudo: a Mulher-Maravilha
Quando Mulher-Maravilha estreou como série regular em 1975, após um filme piloto exibido no ano anterior, a televisão apresentou algo pouco comum para o período.
Baseada na personagem da DC Comics, a produção mostrava Diana Prince, uma amazona que deixava sua ilha para lutar contra o mal no mundo dos homens, primeiro em cenários da Segunda Guerra Mundial e depois nos tempos modernos.
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Lynda Carter deu à heroína uma combinação de força física, elegância e serenidade. Sua Mulher-Maravilha era capaz de enfrentar tanques e vilões, mas sua principal característica era a busca pela verdade e a recusa à crueldade.
A atriz defendia uma personagem poderosa sem perder a dimensão humana, algo ainda raro entre heróis da época.
O momento mais lembrado da série é a transformação. Diana Prince percebe o perigo, gira sobre si mesma e, em meio a efeitos visuais simples para os padrões atuais, surge com o uniforme estrelado, o laço dourado e os braceletes.
Mais do que um recurso de cena, o giro tornou-se uma imagem simbólica de uma mulher assumindo seu papel sem pedir autorização.
Tecnologia e humanidade em A Mulher Biônica
Exibida entre 1976 e 1978, A Mulher Biônica nasceu como desdobramento de O Homem de Seis Milhões de Dólares. A personagem Jaime Sommers era uma tenista profissional que sobrevivia a um grave acidente após receber implantes biônicos experimentais, que lhe garantiam força, velocidade e audição ampliadas.
Lindsay Wagner trouxe à personagem uma vulnerabilidade que a diferenciava de outros heróis tecnológicos da época. Jaime não era militar nem agente treinada.
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Era uma mulher comum, que aceitava trabalhar para uma agência governamental em troca da própria sobrevivência. Essa ambiguidade entre poder e fragilidade rendeu à atriz um Emmy e ajudou o público a se identificar com a personagem.
As cenas em câmera lenta, acompanhadas do efeito sonoro metálico característico, marcaram a memória coletiva. Ver uma mulher correndo, saltando obstáculos e enfrentando desafios físicos extremos ajudou a normalizar a presença feminina em narrativas de ação.
O poder do coletivo em As Panteras
Lançada em 1976, As Panteras rapidamente se tornou um fenômeno cultural. A série acompanhava três mulheres altamente treinadas, ex-integrantes da polícia, que deixavam funções administrativas para atuar como detetives particulares em missões de alto risco.
Cada personagem tinha um perfil definido, mas era a dinâmica do grupo que sustentava a narrativa. Elas eram independentes, dividiam a casa, tomavam decisões estratégicas e confiavam umas nas outras em campo. Apesar de responderem a um chefe masculino invisível, a força central da série estava na parceria entre elas.
A abertura, a voz de Charlie no viva-voz e a imagem das três caminhando juntas tornaram-se símbolos de uma nova forma de protagonismo feminino, ainda que cercada por contradições.
Avanços e limites dos anos 70
O surgimento dessas séries precisa ser entendido dentro do contexto da segunda onda do feminismo, que ganhava força nos Estados Unidos ao reivindicar igualdade de direitos no trabalho e na vida social. A televisão respondeu a esse movimento, mas sem romper totalmente com estruturas conservadoras.
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Houve avanços claros. Pela primeira vez, mulheres lideravam séries de ação, resolviam conflitos e ocupavam o centro da narrativa. Ao mesmo tempo, a autonomia feminina ainda aparecia vinculada a instituições comandadas por homens, como agências governamentais ou chefes invisíveis.
A crítica da época cunhou o termo “Jiggle TV” para apontar a exploração da imagem das atrizes, com figurinos e enquadramentos que reforçavam a objetificação feminina. Era uma contradição do período: mulheres fortes podiam ocupar a tela, desde que também correspondessem a padrões estéticos rígidos.
Um legado que abriu caminho
Apesar das limitações, o impacto dessas personagens é duradouro. Elas ajudaram a tornar aceitável a presença de mulheres no centro da ação e abriram espaço para narrativas mais complexas nas décadas seguintes.
Produções como Xena: A Princesa Guerreira e Buffy: A Caça-Vampiros herdaram esse caminho e avançaram em temas como autonomia, conflito interno e ambiguidade moral.
No cinema atual, a Mulher-Maravilha interpretada por Gal Gadot carrega traços dessa trajetória iniciada nos anos 70.
Cinco décadas depois, aquelas personagens seguem como referência porque provaram que o público estava pronto para ver mulheres fortes, ativas e decisivas. Não como exceção, mas como protagonistas.




