
Vivian Rio Stella, doutora em Linguística e especialista em comunicação corporativa, reflete sobre o custo emocional do silêncio imposto nas organizações
O Janeiro Branco costuma convidar à pausa, à escuta e ao cuidado com a saúde mental. No ambiente de trabalho, porém, existe um fator menos visível, mas decisivo para o bem-estar emocional: a forma como as pessoas se comunica, ou deixam de se comunicar.
Palavras mal escolhidas, não ditas ou excessivamente ambíguas produzem um desgaste contínuo que, aos poucos, adoece relações, equipes e decisões.
Para Vivian Rio Stella, doutora em Linguística pela Unicamp e referência em comunicação humanizada nas organizações, parte desse adoecimento nasce do silêncio organizacional.
“Não o silêncio atento, que escuta e acolhe, mas aquele imposto pelo medo ou pelo cálculo constante de risco. Em muitas empresas, falar exige medir consequências, suavizar alertas e calibrar frases para não gerar atrito.”
Com o tempo, segundo ela, a autocensura passa a ser confundida com cordialidade, e a ausência de conflito é interpretada, de forma equivocada, como sinal de maturidade profissional.
O silêncio que se aprende no trabalho
Pesquisas mostram que esse silêncio não é apenas individual, mas estrutural. Para a doutoura, pessoas deixam de se manifestar não por falta de assertividade, mas porque aprendem, na prática, que discordar pode custar reputação, oportunidades ou pertencimento.
“Decisões já definidas, feedbacks escassos ou confusos e estratégias pouco alinhadas transformam a comunicação em uma fonte permanente de insegurança.”
O contraste com o discurso corporativo é evidente. Ela cita um levantamento de 2025 da Câmara Americana de Comércio, a Amcham, que indica que 58% de CEOs e gestores consideram a comunicação uma habilidade estratégica para o futuro do trabalho.
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Já um relatório de 2024 da Grammarly aponta que 86% de funcionários e executivos veem a comunicação e a colaboração deficientes como as principais causas de falhas organizacionais. Em média, profissionais gastam 3,2 horas por semana apenas tentando esclarecer informações pouco claras.
O custo invisível das conversas mal conduzidas
Existe um preço silencioso nas conversas mal feitas. Líderes que acreditam ser claros, mas não são. Gestores que interrompem, desautorizam ou evitam diálogos difíceis.
“Tentativas de suavizar temas sensíveis que apenas adiam decisões necessárias. Esses padrões aumentam a sobrecarga cognitiva e alimentam ansiedade, frustração e sensação de desamparo nas equipes.”
Segundo ela, o erro mais comum é associar saúde mental à ausência de tensão. O que realmente protege não é o silêncio, mas a clareza.
“Conflitos abertos, quando tratados com respeito, critérios explícitos e espaço de escuta, tendem a ser menos nocivos do que tensões prolongadas e não nomeadas.”
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Comunicação como infraestrutura de saúde
Para que o Janeiro Branco, a pesquisadora destaca a importância de deixar um legado concreto dentro das organizações.
“A comunicação precisa ser tratada como infraestrutura de saúde, e não apenas como uma habilidade interpessoal. Isso exige revisar relações de poder, práticas de escuta e critérios de decisão.”
A pergunta central deixa de ser apenas “como as pessoas estão se sentindo?” e passa a incluir “quem pode se expressar sem sofrer consequências?”. Sem essa reflexão, qualquer discurso sobre bem-estar corre o risco de se tornar superficial.
Quatro práticas para uma comunicação que cuida
Algumas ações ajudam a transformar a comunicação em um fator de proteção emocional no trabalho:
- Priorizar mensagens objetivas, com critérios, prazos e expectativas claros, mesmo em temas sensíveis.
- Tornar as conversas mais frequentes e previsíveis, abrindo espaço real para escuta e reduzindo o peso emocional acumulado.
- Comunicar decisões, mudanças e prioridades de forma consistente, evitando ruídos e ambiguidades desnecessárias.
- Criar condições concretas para que opiniões divergentes possam ser expressas sem risco de retaliação ou isolamento.
Comunicar bem não é suavizar tudo. É sustentar diálogos que preservam a saúde emocional, respeitam a inteligência e reconhecem os limites e a dignidade de quem trabalha. Quando a comunicação cuida, ela deixa de adoecer e passa a construir ambientes mais seguros, humanos e sustentáveis.
A reflexão proposta por Vivian Rio Stella nasce de uma trajetória acadêmica e prática dedicada a observar como a comunicação atravessa relações de poder, cuidado e saúde emocional.
Doutora em Linguística, com atuação como professora, pesquisadora e consultora, ela defende que comunicar não é apenas transmitir mensagens, mas criar condições reais para o diálogo, a escuta e o respeito no cotidiano de trabalho.




