
Com raízes em Chapecó, a artesã Elaine Pereira usa pigmentos naturais para criar peças únicas que traduzem afeto, cultura e sustentabilidade
O sol, a lua, o vento e as plantas não são apenas elementos da natureza para Elaine Fátima Carbonari Pereira. Eles são fontes de inspiração e matéria-prima para a arte dela.
Após se aposentar como professora, em 2019, ela mergulhou nas lembranças costuradas pelas mãos de suas avós, tias e mãe, e transformou o saber herdado em criação.
Unindo a sensibilidade do fazer manual à formação em Biologia, Elaine encontrou no artesanato seu caminho de expressão. Hoje, dá vida a camisetas, lenços e echarpes tingidos com pigmentos naturais, em um trabalho que traduz o encontro entre ciência, ancestralidade e afeto.
“Era algo que já estava dentro de mim, foi só expressar como se fosse um resgate, algo que eu já havia praticado em algum momento de minha vida. Hoje, o artesanato é minha atividade principal, por isso as leituras, os trabalhos, os cursos e as produções estão relacionados ao tingimento natural”, explica a artesã.
Pelo trabalho singular e sustentável, carregado de simbologia e cultura, Elaine foi convidada a participar da exposição “Sinta o Sul – Bioma Mata Atlântica”, que está em cartaz até o dia 15 de outubro no Centro Sebrae de Referência do Artesanato Brasileiro (CRAB), no Rio de Janeiro.
Forte identidade
A mostra reúne peças feitas à mão com matérias-primas originárias do Bioma Mata Atlântica – como argila, madeira, fibras naturais, fios e tecidos – que revelam a riqueza dos saberes tradicionais e a diversidade étnica da região Sul.
Os elementos expostos convidam à reflexão sobre histórias, desafios e contrastes, expressando uma identidade cultural rica e autêntica.
A mostra é fruto de uma iniciativa inédita realizada em colaboração entre o Sebrae Santa Catarina, Sebrae Paraná, Sebrae Rio Grande do Sul e CRAB.
“Foi surpreendente receber este convite. Ser chamada para expor no Rio de Janeiro e representar o Sul do Brasil, dentro de uma temática que milito, defendo e produzo, me fez sentir valorizada, honrada e reconhecida”, relembra Elaine.
A artesã complementa que demorou a internalizar esse convite tão grandioso.
“Sem dúvida, isso é resultado de uma caminhada bonita que faço com muita leveza, amor e afeto”, analisa.
Tecendo identidade e conexão
No painel criado por Elaine, que integra a exposição do CRAB, o trabalho manual revela-se nas camadas de tecidos distintos que foram tingidos com erva-mate, originária da Mata Atlântica, na região Sul da América do Sul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai).
A curadora da exposição, Silvia Baggio, que é especialista em cultura e criação, lembra que essa planta faz parte da identidade de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul.
“O consumo delas começou com os indígenas guaranis, que a utilizavam para fins medicinais e cerimoniais, por isso, a erva desempenhou um papel espiritual e social em suas relações”
Suas folhas são símbolo cultural e histórico de tradições dessa região. Esses costumes ainda hoje ecoam em gestos e rituais cotidianos. Elas são usadas para fazer várias infusões populares, como chimarrão, tereré ou mate cozido (semelhante a um chá).
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Silvia explica que Elaine, cuidadosamente, coletou e imprimiu as folhas de erva-mate. Em seguida, sobrepôs folhas costuradas, criando texturas nos tecidos e uma narrativa de conexão.
“A compreensão deste processo de tingimento vai além da técnica porque reforça o caráter identitário e reafirma o seu pertencimento, ou seja, um reencontro com a própria origem”, comenta Silvia.

Elaine Pereira entre fios, memórias e natureza
Desde a infância, as mãos de Elaine aprenderam a dialogar com os fios e as fibras, entre tramas de tricô, crochê, trança de trigo, costura e frivolité.
Aos seis anos de idade já fazia pequenas peças de crochê. Com o tempo, seu processo de aprendizado se tornou mais técnico e minucioso.
Na adolescência, produzia carteiras, bolsas e blusas de tricô, e uma vez ou outra precisava do auxílio da mãe para finalizar as cavas nos braços e na gola.
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Atualmente, à frente da marca Divina Flora, em Chapecó, ela dá vida a camisetas, vestidos, lenços, echarpes e ecobags. Essas peças carregam, em cada estampa, um pedaço da paisagem que a inspira.
Todo trabalho da artesã é desenvolvido com base na sustentabilidade, que a acompanha desde a graduação em Biologia, especialização em Ecologia e, posteriormente, na Educação Ambiental.
“As bases de meu trabalho são tecidos de fibras naturais como algodão, linho, lã e seda. As estampas ou tinturas carregam, principalmente, as cores e formas de folhas e flores, mas incluem também raízes, cascas e sementes”, ressalta.
Elaine cultiva muitas plantas em seu quintal e coleta no entorno quando precisa de algo específico para suas peças.
“Colho apenas o necessário, em respeito à planta e ao seu ciclo. Quero que ela permaneça viva. Reaproveito resíduos como cascas de abacate, romã, cebola, araucária, caroço de abacate, cúrcuma e urucum. E, quando possível, uso tecidos de algodão de cultivo agroecológico”, enfatiza.
A arte e a representação das origens de Elaine
A intuição rege o processo criativo da artista, que escolhe as plantas disponíveis para o atual trabalho. Ela explica que as fases da lua interferem na disponibilidade dos taninos e flavonoides, utilizados como pigmentos para cada produção.
Em outras oportunidades, traz algo relacionado com o sopro do vento e o desenho geométrico das plantas.
“Como cada peça carrega o tempo do fazer e os vestígios da natureza, espero que desperte no outro a energia que pulsa e a vida que floresce”, antecipa sua expectativa.
Para Elaine, cada peça deve ser cuidada com carinho para durar o máximo possível.
A artesã lembra como principais desafios a identificação do público-alvo e a valorização de uma peça artesanal, feita com tempo, vivência e reflexão sobre o fazer.
Feito em Chapecó
Elaine é artesã credenciada à Secretaria de Cultura de Chapecó e faz parte do programa “Feito em Chapecó”, que produz souvenirs da identidade cultural local.
“Minhas peças dialogam com a história da colonização do município. Recentemente, criei a coleção ‘Camponesa’, um tributo aos que cultivam a terra, os movimentos sociais, à autenticidade do viver”, comenta.
Para representar o território, usa plantas nativas como a goiabeira e outras da família Myrtaceae, erva-mate e araucária.
“A paleta do tingimento natural revela tons terrosos, como se a terra se manifestasse por meio das cores”, complementa.




