Adultização infantil expõe crianças a comportamentos e responsabilidades de adultos, trazendo riscos ao desenvolvimento. Entenda como identificar sinais e proteger a infância

Adultização é quando crianças ou adolescentes passam a adotar comportamentos, responsabilidades ou estéticas próprias do mundo adulto antes do tempo.

Pode acontecer de várias formas:

  • Uso de roupas e maquiagem com conotação adulta.
  • Participação em conteúdos ou eventos sexualizados.
  • Responsabilidades excessivas, como cuidar de irmãos ou ajudar no sustento da casa.
  • Pressão para se comportar ou se comunicar como adultos nas redes sociais.

A psicanalista Andréa Ladislau alerta que, muitas vezes, a adultização começa de forma sutil, por meio de comportamentos considerados “brincadeira”, como dizer que duas crianças são “namoradinhos”, por exemplo. Um brincadeira que pode parecer inocente, mas pode gerar consequências emocionais sérias.

“Quando atribuímos a uma criança o ato de namorar, estamos antecipando uma fase que não deveria ser adultizada. Isso pode encurtar a infância e provocar sexualização precoce.”

Ela reforça que, mesmo sem intenção, essa antecipação leva a criança a imitar comportamentos que observa no mundo adulto, mas que ainda não é capaz de compreender. O resultado pode ser ansiedade, vergonha, confusão e até angústia.

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Por que o tema está em debate agora

O assunto ganhou grande repercussão após o youtuber Felca denunciar, em um vídeo que ultrapassou 30 milhões de visualizações, casos de exploração e sexualização de menores em conteúdos digitais.

A repercussão mobilizou o Congresso Nacional, que já discute 17 projetos de lei para regular a presença de crianças nas redes e criminalizar a erotização infantil online.

No Senado, também tramitam propostas para responsabilizar plataformas, produtores de conteúdo e responsáveis legais, buscando conter essa exposição precoce.

Quando a infância é encurtada

Segundo Andréa, a infância é o período da inocência, no qual a criança ainda não compreende o mundo como um adulto.

Antecipar fases de desenvolvimento, impondo comportamentos e vivências adultas, interrompe o processo natural de amadurecimento.

“A criança imita um comportamento que vê em casa ou na sociedade, mas não compreende seu significado. Isso pode gerar ansiedade, vergonha, confusão e até angústia.”

Esse encurtamento da infância é agravado pela exposição a conteúdos e estímulos que pertencem ao universo adolescente ou adulto — algo cada vez mais comum com a popularização das redes sociais.

Como identificar no dia a dia

A adultização pode se manifestar em situações como:

  • Incentivar coreografias sensuais ou poses adultas em fotos.
  • Expor crianças a roupas, maquiagens e acessórios não adequados à idade.
  • Pressionar para seguir padrões estéticos ou comportamentos vistos em influenciadores adultos.
  • Estimular “namoros” entre crianças como algo normal.

O que os pais e responsáveis podem fazer

  1. Converse com clareza – Explique que namoro e comportamentos sexuais são assuntos de adultos. Crianças têm amigos e colegas, não parceiros amorosos.
  2. Acompanhe a vida digital – Saiba o que a criança vê, com quem interage e quais conteúdos consome.
  3. Valorize a infância – Incentive brincadeiras, atividades criativas e a convivência familiar.
  4. Denuncie abusos – Casos de exploração ou erotização devem ser comunicados ao Disque 100 ou ao Conselho Tutelar.

Um compromisso coletivo

Proteger a infância é um dever compartilhado entre família, escola e sociedade. Como reforça a Andréa Ladislau:

“Criança feliz é aquela que vive a infância sendo criança e que completa, em sua plenitude, todas as etapas do desenvolvimento.”

Mais do que um debate nas redes, a adultização é um problema que exige atenção, informação e ação de todos para garantir que cada criança possa viver integralmente sua fase mais importante: a infância.

Adultização: um problema que vai além da internet

O debate provocado pelo vídeo do youtuber Felca revelou uma questão urgente: a adultização infantil não acontece só em casos extremos, mas também nas pequenas atitudes do cotidiano, especialmente nas redes sociais.

O terapeuta Paulo Dorta, criador do método Sintonia Quântica, explica que a exposição precoce de crianças a comportamentos e linguagens adultos pode afetar profundamente o psicológico e o emocional.

“No plano psicológico e emocional, isso afeta autoestima, identidade e pode gerar traumas profundos, principalmente quando a criança perde a atenção da mídia e entra no ostracismo.”

Estudos como o da American Psychological Association (APA) também confirmam que a sexualização precoce está ligada a maiores índices de ansiedade, depressão e distorção da autoimagem.

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No Brasil, dados da Safernet indicam que as denúncias de exploração sexual infantil na internet aumentaram 70% nos primeiros quatro meses de 2023, mostrando o avanço do problema.

A repercussão do vídeo de Felca reacende um chamado para que famílias e sociedade reflitam sobre os hábitos digitais, supervisionem o que as crianças consomem e garantam o direito delas a uma infância plena, protegida e respeitada.