Chef brasileira Cândida Batista fala sobre maternidade, autoridade e os obstáculos enfrentados por mulheres que ocupam posições de liderança na alta gastronomia europeia.

A chef brasileira Cândida Batista, de 43 anos, afirma que mulheres ainda precisam provar diariamente sua capacidade de liderança dentro das cozinhas profissionais.

Com uma trajetória construída ao longo de duas décadas em restaurantes estrelados Michelin na Europa, ela relata que a maternidade segue sendo tratada como um problema em muitos ambientes da alta gastronomia.

Atualmente trabalhando em um restaurante selecionado pelo Guia Michelin em Viena, na Áustria, Cândida diz que as dificuldades vão além da pressão intensa do serviço. Segundo ela, direitos básicos ligados à maternidade ainda enfrentam resistência dentro das equipes.

“As horas trabalhadas não favorecem maternidade. Muitas vezes, um direito básico, como precisar sair para cuidar de um filho doente, acaba sendo visto como deixar a equipe desfalcada”, afirma.

Para a chef, uma das maiores diferenças está na forma como mulheres são reconhecidas dentro da cozinha. Ela explica que ocupar um cargo de liderança nem sempre significa ser percebida como autoridade.

::: Acompanhe >>> Chef Jô mostra como a cozinha afetiva pode mudar trajetórias

“Existe uma diferença entre estar na cozinha e ser reconhecida como liderança dentro dela. Você precisa se provar mais, sustentar mais o que fala, repetir até que aquilo seja entendido como autoridade”, relata.

Postura e consistência

Segundo Cândida, esse comportamento aparece principalmente nos momentos mais intensos do serviço, quando decisões precisam ser rápidas e objetivas.

“Já vivi situações em que eu dava uma orientação e ninguém reagia. Minutos depois um homem repetia exatamente a mesma coisa e a resposta da equipe era completamente diferente”, conta.

Ela afirma que, ao longo da carreira, percebeu que esse padrão se repetia em diferentes países e culturas gastronômicas.

“Para um homem, muitas vezes o cargo já entrega autoridade. Para uma mulher, ela precisa ser reafirmada todos os dias, no detalhe, na postura e na consistência”, diz.

Maternidade ainda pesa mais para mulheres

Apesar do crescimento da presença feminina nas cozinhas profissionais, Cândida acredita que o reconhecimento ainda acontece de forma desigual. Para ela, muitas mulheres seguem precisando convencer constantemente as pessoas de que merecem ocupar espaços de comando.

“A mulher ocupa o espaço, mas ainda precisa convencer as pessoas de que merece estar comandando ele”, afirma.

Com o tempo, a chef conta que passou a compreender que essas experiências não eram situações isoladas, mas parte de uma estrutura presente em muitos ambientes profissionais da gastronomia.

“Quando você entende que não é algo individual, você para de se culpar o tempo inteiro e começa a enxergar o ambiente de outra forma”, conclui.