
O grupo 60+ da Casa Nova Escola de Teatro transforma vivências pessoais em arte e revela como o palco pode abrir caminhos e transformação
Há histórias que não começam no palco, mas ganham novo sentido quando chegam até ele. Na Casa Nova Escola de Teatro, em Chapecó (SC), cinco mulheres 60+ decidiram viver algo que muitas deixaram guardado por anos: o desejo de experimentar, arriscar e criar novos capítulos para a própria vida.
A participação no 9º Teatrando, festival que neste ano tem o cinema como tema, abriu espaço para que esse grupo transformasse experiência, bagagem e coragem em expressão artística. Para essa edição, a direção buscou uma peça que dialogasse com o universo feminino e com a força de mulheres maduras que carregam décadas de histórias.
A escolha foi Sex and the City, série da TV norte-americana, adaptada para a realidade do grupo, mantendo a essência das conversas francas, da amizade e da potência feminina.
Onde a vida encontra o teatro
A diretora da peça, Roberta Ebeliny, conhece bem o poder do palco. Sua relação com o teatro nasceu de um momento difícil. Em 2016, ela perdeu o marido no acidente da Chapecoense.
“Eu buscava algo que me ajudasse a respirar de novo”, conta.
Foi numa aula experimental na Casa Nova que encontrou essa possibilidade.
“Quando estava lá, eu esquecia do mundo lá fora. Foi muito importante para mim.”
Como diretora, Roberta conduz o grupo com a mesma delicadeza e firmeza que a arte exigiu dela no próprio processo de cura. Sua entrada no teatro veio de uma vulnerabilidade profunda, e hoje ela devolve esse aprendizado às alunas.
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Observa, orienta, acolhe e provoca. Para ela, dirigir a turma 60+ não é apenas montar uma peça: é testemunhar histórias ganhando corpo e voz no palco.
A conexão com a escola foi tão profunda que, anos depois, ela se tornou sócia ao lado de Estevam Casanova, fundador e diretor artístico.
Em 2021, juntos, passaram a buscar novas propostas para ampliar a atuação da escola. A turma 60+ surgiu desse movimento.
Um elenco que nasceu de forma espontânea
As alunas Márcia Lamaison, Maria Ortenila da Luz, Rosane Martins, Suzana Marchi e Suzana Terezinha Xavier chegaram por divulgação, conversas entre amigas e curiosidade.
“Convidamos para uma aula experimental e elas ficaram”, lembra Roberta.
O grupo se formou naturalmente, com cinco mulheres que nunca haviam feito teatro, mas que traziam vida suficiente para preencher qualquer cena.
Roberta lembra que o processo de ensaio evoluiu como costuma acontecer com quem se permite viver algo novo.
“Começa tímido e termina grandioso”, diz a diretora.
A entrega, a dedicação e a coragem são marcas dessa turma. Subir ao palco do Centro de Eventos, diante de mais de mil pessoas, exige disposição — e elas decidiram assumir esse lugar com brilho próprio.
Quando histórias diferentes encontram o mesmo palco
A entrada de cada participante tem um começo único, mas todas compartilham o mesmo desejo de experimentar.
Rosane Martins, funcionária pública aposentada, conheceu a diretora em uma aula de dança. A curiosidade foi o que a aproximou do teatro.
“O teatro surgiu na minha vida como uma novidade, um desafio. Era a vontade de experimentar algo diferente. Por que não tentar?”
Ela lembra que sua geração cresceu com portas fechadas para o protagonismo feminino.
“Somos fruto de uma época pós-ditadura. Não tivemos espaço na família, na escola, na sociedade. Hoje, esse espaço existe. Podemos transitar livremente por ele. Tome posse do seu lugar.”
Para Rosane, este é o momento de se reinventar: “Com 60+, filhos adultos, é hora de reescrever nossa história.”
É nesse ponto que a percepção da diretora costura o que cada mulher vive em cena. Roberta observa nas alunas algo que reconhece como força e liberdade. “O que me chama atenção nessas mulheres 60+ é a bagagem. Elas chegam com uma clareza muito própria.”
Roberta destaque que o teatro é exposição, é se despir, e elas não têm vergonha alguma.
“Estão ali para se entregar, para viver cada gesto, cada fala. Eu aprendo muito com elas. Espero que permaneçam conosco e que mais mulheres, e homens também, vivam essa experiência. O que faz essa turma brilhar é essa história de vida que carregam, essa força que só o tempo dá.”
A vivência também transformou Suzana Terezinha Sonaglio Xavier, 61 anos, representante comercial, que sempre esteve em palcos de dança e declamação, mas ainda não havia experimentado o teatro.
“Significa viver algo diferente, superar limites. Sempre participei de apresentações, mas o teatro me trouxe outra forma de sentir a arte cênica. Algo que eu nunca tinha vivido.”
Para ela, há algo libertador na maturidade: “Estamos numa idade em que não podemos ter vergonha de nos expor. Temos o direito de estar onde quisermos. Nunca é tarde para novos desafios.”
E reforça a leveza que conduz esse processo:
“No palco, não temos a preocupação de estar perfeitas. Estamos aprendendo. Só queremos ser felizes.”
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Entre as alunas está Márcia Lamaison, 60 anos, empresária, que enxergou no teatro uma força que ultrapassa o espetáculo.
“Foi um desafio. Somos a primeira turma de mulheres da Escola Nova de Teatro. E sermos 60+ dá a isso um significado enorme.”
Márcia fala sobre autonomia, aceitação e beleza do tempo:
“Podemos ser o que quisermos ser. E precisamos ser bem resolvidas com nossa idade, com nosso corpo, com nossas marcas do tempo. Não precisamos provar mais nada para ninguém.”
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E deixa um recado para outras mulheres: “É a coragem do novo. É o reinventar sem medo.”
“O preconceito com a idade existe, mas não pode nos limitar. Que as mulheres que nos veem no palco sintam que também podem escolher o próprio caminho, decidir com quem, como e onde querem estar.”
Entre as vozes que ampliam o significado dessa estreia está a de Suzana Marchi, 70 anos, aposentada, dona de casa e avó, que encontrou nos ensaios uma descoberta tardia e poderosa.
“Aprendi que coragem não envelhece”, conta.
Foi no palco que ela reencontrou a mulher que sempre amou o teatro, mas que faltava espaço para florescer.
“Sentir meu corpo, minha voz e minha alegria renascerem me mostrou que nunca é tarde para recomeçar.”
Para outras mulheres, seu recado é direto: “Vá sem medo. O teatro acolhe, liberta e devolve uma força que a gente nem imagina que tem. Aos 70, me senti em casa. Se isso fez bem para mim, pode fazer para qualquer mulher. Basta dar o primeiro passo.”
Um futuro aberto para outras mulheres
A Casa Nova oferece aula experimental gratuita e inicia novas turmas no começo do ano.
“O teatro não exige pré-requisito. A curiosidade basta. O teatro é para todos”, reforça a empresária e diretora da Casanova Escola de Teatro
O grupo 60+ mostra exatamente isso: é possível recomeçar em qualquer fase. Subir ao palco não é sobre interpretar personagens é sobre afirmar que ainda há muito a viver, muito a aprender, muito a sentir. E, principalmente, muito a dizer.
9º Festival Teatrando
O espetáculo integra a programação do 9º Festival Teatrando, realizado pela Casa Nova Escola de Teatro no Centro de Eventos de Chapecó, de 20 a 23 de novembro.
A edição deste ano tem o cinema como tema e reúne apresentações gratuitas, abertas ao público e voltadas à formação cultural da cidade.
O festival reforça a importância do acesso à arte, da participação comunitária e do incentivo à produção local. Com ingressos distribuídos pelo Sympla, o Teatrando convida o público a viver quatro dias de teatro, troca e celebração da cena chapecoense.
Sobre Sex and the City
Lançada no fim dos anos 1990, Sex and the City é um clássico da TV norte-americana que acompanha quatro amigas vivendo em Nova York.
A série ficou conhecida por discutir amizade, amor, desejos, escolhas e a vida contemporânea das mulheres, sempre com humor, franqueza e muita personalidade.
Na adaptação da turma 60+, esses temas ganham novas camadas a partir das vivências, maturidade e histórias reais das mulheres que hoje ocupam o palco.
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Como participar?
Evento: 9º Festival Teatrando
Realização: Casa Nova Escola de Teatro
Data: 20 a 23 de novembro
Local: Centro de Eventos de Chapecó – SC
Ingresso: Gratuito
Retirada: Via Sympla (enquanto houver disponibilidade)
Atração: Apresentação da turma 60+ com adaptação de Sex and the City
Tema do festival: Cinema no Teatro
Indicação: Livre
Apoio: Fundação Catarinense de Cultura, Circuito Catarinense de Cultura, Governo de Santa Catarina, Governo Federal
PROGRAMAÇÃO GERAL DO TEATRANDO
Quinta-feira | 20/11 | início 20h
- Espetáculo convidado: DONA JACINTA (Cia Nosso Olhar, de Florianópolis)
- Turma Teen 4: Os SMURFS E A VILA PERDIDA
- Turma Teen 3: DIVERTIDAMENTE
- Turma Teen 1: FAMÍLA ADAMS
Sexta-feira | 21/11 | início 19h30
- Turma Infantil 2: ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS
- Turma Infantil 3: WICKED
- Turma 60 +: SEX AND THE CITY
- Turma Profissionalizante 8: O RINOCERONTE
Sábado | 22/11 | início 18h30
- Turma TEA: HARRY POTTER
- Turma Infantil 1: ENCANTO
- Turma Musical: MAMMA MIA!
Domingo | 23/11 | início 18h
- Turma Teen 5: LISBELA E O PRISIONEIRO
- Turma Profissionalizante 7: CENTRAL DO BRASIL
- Especial Casanova (Autoral): UM PLANO QUASE PERFEITO
- Turma Adulto: AS BRUXAS DE SALEM




