Psicóloga explica por que ideias antigas sobre comportamento feminino e masculino continuam presentes no trabalho, na família e na vida afetiva

Durante uma reunião de trabalho, uma mulher defende uma ideia com firmeza e é considerada sensível demais. Em outra situação, um homem demonstra irritação e é visto como alguém decidido e assertivo. Embora pareçam situações comuns, elas refletem uma percepção antiga que ainda acompanha homens e mulheres: a ideia de que elas seriam mais emocionais e eles mais racionais.

Para a psicóloga e psicanalista Blenda Oliveira, doutora em Psicologia pela PUC-SP, essa divisão não é uma característica natural dos sexos, mas uma construção cultural que atravessa gerações e continua influenciando a forma como as pessoas são percebidas e tratadas.

“Durante muito tempo, homens foram associados ao pensamento lógico e à liderança, enquanto as mulheres foram ligadas ao cuidado e à emoção. Isso não surgiu por acaso. Essa divisão ajudou a justificar desigualdades históricas e ainda aparece de formas muito sutis no cotidiano”, explica.

Segundo a especialista, o problema não está nas emoções, mas na forma diferente como elas são interpretadas pela sociedade.

“Quando um homem demonstra raiva, muitas vezes ele é visto como firme ou assertivo. Quando uma mulher expressa indignação, ela pode ser chamada de desequilibrada, dramática ou sensível demais. Existe uma diferença importante na forma como a sociedade lê essas emoções”, afirma.

::: Acompanhe >>> 4 motivos para assistir Ladies First

Como isso afeta a vida das mulheres

A ideia de que mulheres seriam menos racionais continua impactando ambientes profissionais, acadêmicos e até familiares.

Mesmo apresentando níveis de escolaridade cada vez mais elevados, as mulheres ainda enfrentam desafios relacionados ao reconhecimento de sua capacidade intelectual e de liderança. Dados do IBGE mostram que elas seguem recebendo salários inferiores aos dos homens em diversas áreas, inclusive em profissões que exigem alta qualificação.

Para Blenda, parte dessa realidade está ligada à tentativa histórica de deslegitimar a fala feminina.

“Existe uma tentativa histórica de deslegitimar a fala feminina associando as mulheres ao excesso emocional. Isso impacta a forma como elas são ouvidas em reuniões, em cargos de liderança e até dentro das próprias relações pessoais”, destaca.

Na prática, isso significa que muitas mulheres precisam provar repetidamente sua competência em espaços onde opiniões masculinas costumam ser consideradas mais objetivas ou confiáveis.

O peso dos estereótipos também sobre os homens

Embora as mulheres sejam diretamente afetadas por esses julgamentos, os homens também carregam consequências desse modelo.

Desde cedo, muitos aprendem que demonstrar tristeza, medo ou vulnerabilidade pode ser interpretado como sinal de fraqueza. Como resultado, acabam reprimindo sentimentos importantes para a construção de relações saudáveis.

“Muitos homens não aprenderam a lidar emocionalmente consigo mesmos porque foram ensinados que a sensibilidade ameaça a masculinidade. Isso pode gerar sofrimento emocional silencioso, dificuldades afetivas e até formas inadequadas de lidar com frustrações e conflitos”, explica a psicóloga.

::: Isso é importante >>> Por que aceitamos migalhas em nossos relacionamentos?

Ela ressalta que, embora estatisticamente os homens pratiquem mais violência física contra as mulheres, é importante não associar masculinidade à violência.

“Força física não significa maturidade emocional, equilíbrio afetivo ou superioridade moral. Muitas vezes, a dificuldade em lidar com emoções e frustrações se transforma em relações violentas e em uma significativa dificuldade de comunicação consigo mesmo e com o outro”, afirma.

Emoção e razão caminham juntas

Para Blenda Oliveira, uma das mudanças mais importantes é compreender que emoção e razão não são opostas.

Segundo ela, todas as pessoas tomam decisões influenciadas por sentimentos, experiências e pensamentos. A capacidade de sentir não reduz a inteligência de ninguém.

“A ideia de que sentir invalida a inteligência de alguém é extremamente equivocada. Emoções fazem parte da forma como todos nós pensamos, decidimos e nos relacionamos”, diz.

Mais do que reforçar diferenças entre homens e mulheres, a especialista acredita que o desafio atual é permitir que ambos possam viver de forma mais completa.

“Homens precisam se sentir autorizados a expressar emoções sem vergonha. E mulheres precisam ser reconhecidas também por sua racionalidade, liderança e capacidade intelectual. Uma sociedade emocionalmente mais saudável depende da capacidade de homens e mulheres se ouvirem para além dos estereótipos que, durante séculos, limitaram ambos”, conclui.

Quem é Blenda Oliveira?

Blenda Oliveira é doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), psicanalista pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) e autora do livro Fazendo as pazes com a ansiedade, indicado ao Prêmio Jabuti em 2023.

A especialista atua com temas relacionados à saúde mental, autoconhecimento, envelhecimento e solidão.