Especialistas explicam por que a inteligência artificial pode apoiar decisões em saúde, mas não substituir a avaliação médica humana.

Você sente um sintoma diferente, abre o celular e, em poucos segundos, recebe uma resposta que parece completa, segura e até acolhedora. Para muita gente, esse caminho já virou rotina. Antes de marcar consulta, vem a busca. Antes de conversar com um profissional, aparece a pergunta para a inteligência artificial.

A tecnologia está cada vez mais presente na saúde e isso não é necessariamente um problema. Pelo contrário. Hoje, sistemas de inteligência artificial já ajudam médicos a analisar exames, organizar informações clínicas, identificar padrões e apoiar decisões mais rápidas.

O cuidado começa quando a ferramenta deixa de ser apoio e passa a ocupar o lugar do diagnóstico.

Segundo especialistas, o ponto central não é evitar o uso da tecnologia, mas entender que ela tem limites.

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O médico cardiologista e cooperado da Unimed Chapecó, Guilherme Luiz de Melo Bernardi, explica que a inteligência artificial trabalha com informações gerais, enquanto a medicina exige algo que nenhuma ferramenta consegue reproduzir completamente: contexto humano.

Ela não faz exame físico, não observa detalhes do comportamento do paciente e não entende fatores emocionais, históricos ou sociais que podem mudar completamente uma avaliação.

Quando respostas convincentes podem estar erradas

Um dos riscos apontados pelos especialistas recebe um nome que ainda parece distante do público, mas já preocupa quem acompanha o avanço dessas ferramentas: alucinação.

Na prática, significa que a inteligência artificial pode apresentar informações incorretas de forma extremamente convincente.

O conselheiro de administração e coordenador do Comitê de Tecnologia e Inovação da Unimed Chapecó, Mario Goto, alerta que esse tipo de erro costuma ser difícil de perceber porque as respostas normalmente chegam organizadas, com linguagem segura e tom confiante, mesmo quando não correspondem à realidade.

Existe ainda outro comportamento menos conhecido: a sicofância.

Nesse caso, a ferramenta tende a concordar com o usuário. Em vez de questionar ou ampliar possibilidades, pode reforçar suspeitas pessoais, validar autodiagnósticos e aumentar interpretações equivocadas sobre sintomas e tratamentos.

O risco não está só no chat de inteligência artificial

Os especialistas lembram que o problema também aparece nas redes sociais e em aplicativos de saúde.

Algoritmos priorizam conteúdos que geram atenção, cliques e permanência. Isso significa que soluções rápidas, promessas fáceis e explicações simplificadas costumam circular mais do que conteúdos baseados em evidências científicas.

Nesse cenário, cresce o número de pessoas que chegam mais ansiosas, mais confusas e, muitas vezes, com conclusões prontas antes da consulta.

Então como usar a inteligência artificial com segurança?

A recomendação não é abandonar a tecnologia.

Ela pode ser útil para entender termos médicos, organizar dúvidas, registrar sintomas e preparar perguntas para levar ao consultório.

Segundo o médico Mario, o melhor uso acontece quando a inteligência artificial ajuda o paciente a transformar informações em perguntas mais claras e organizar o que será discutido com o médico, sem substituir a avaliação profissional.

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No fim, a tecnologia pode acelerar processos e ampliar acesso à informação. Mas continua existindo algo que nenhum sistema consegue reproduzir completamente.

Escutar o que não foi dito. Perceber o medo escondido em uma frase. Entender que duas pessoas com o mesmo sintoma podem precisar de caminhos totalmente diferentes.

Porque dados ajudam. Mas cuidado continua sendo uma relação humana.