
Relatos de famosas sobre menopausa transformam silêncio em informação, aproximam sintomas da realidade feminina, inspiram autocuidado, busca médica, apoio emocional, liberdade para envelhecer bem ativa
De repente, a palavra “menopausa” começou a aparecer em entrevistas, capas de revistas, espetáculos de teatro e, claro, nas redes sociais. Fernanda Lima falando sobre a falta de libido, Adriane Galisteu liderando rodas de conversa e campanhas, Claudia Raia transformando suas próprias turbulências hormonais em peça de teatro.
O que antes era assunto sussurrado no consultório ou entre poucas amigas virou pauta pública, com direito a desabafo, humor, conflito e, principalmente, informação.
E isso não é pouca coisa num país em que cerca de 30 milhões de mulheres estão na faixa etária do climatério e da menopausa, mas apenas uma pequena parcela recebe diagnóstico ou tratamento adequado.
Mais do que tendência entre famosas, esse movimento ajuda outras mulheres a reconhecer sintomas, buscar ajuda e entender que não estão “enlouquecendo”: estão atravessando uma fase natural da vida.
Menopausa em números: muitas mulheres, pouca conversa
A menopausa é a última menstruação espontânea e faz parte de um processo maior, o climatério, a transição do período reprodutivo para o não reprodutivo, que pode se estender por vários anos antes e depois desse marco. Em geral, essa fase acontece entre os 45 e 55 anos, com variações de mulher para mulher.
No Brasil, estimativas recentes indicam que cerca de 30 milhões de mulheres vivem hoje nesse período de climatério e menopausa.
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Ainda assim, a maioria segue invisível nas políticas públicas e nos consultórios: dados apontam que apenas uma fração delas recebe diagnóstico pelo SUS e que 82% relatam sintomas que comprometem a qualidade de vida.
Outra pesquisa, feita com brasileiras que sentem sintomas de menopausa, mostra que 44% não fazem nenhum tipo de tratamento, muitas vezes porque seus incômodos são tratados como “exagero” ou “algo normal” por familiares e até profissionais de saúde.
Ao mesmo tempo, levantamentos apontam que o tema ainda é considerado tabu por uma parte importante da população.
Ou seja: milhões sentem, poucas falam, quase ninguém é orientada como deveria. É nesse cenário que a voz das famosas começa a fazer diferença.
Fernanda Lima: libido, insônia e tabus à vista
Quando Fernanda Lima apareceu no Fantástico, na TV Globo, contando que “o que me pegou foi a falta de libido”, ela expôs um dos temas mais delicados da menopausa: o impacto na vida sexual e na autoestima.
Em entrevistas e em uma reportagem especial sobre “essa tal de menopausa”, a apresentadora relatou sintomas como ondas de calor, noites mal dormidas, tristeza, ganho de peso e alterações de memória – experiências que muitas mulheres conhecem, mas que raramente viram notícia em horário nobre.
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Em outra fala, publicada nas redes sociais, Fernanda resumiu algo que muitas sentem, mas não conseguem nomear:
“A menopausa vem acompanhada de muitos tabus”.
Ao transformar os sintomas dela em pauta pública, a artista ajuda a tirar a menopausa do lugar da vergonha e leva, para milhões de espectadoras, uma mensagem importante: não é frescura, não é fraqueza, não é “falta de gratidão pela vida”. É corpo, hormônio, saúde e merece cuidado.
Adriane Galisteu: tristeza, campanha e recomeço
Adriane Galisteu também escolheu não atravessar essa fase em silêncio. Em entrevistas e nas redes sociais, ela contou que viveu um período de tristeza profunda, irritabilidade e sensação de perda de controle, sintomas que chegaram a ser confundidos com depressão antes de receber o diagnóstico de climatério.
Ao perceber que não era a única, Adriane transformou a experiência em ativismo. Hoje, ela é embaixadora da campanha “Eu tô no clima”, que busca conscientizar mulheres sobre climatério e menopausa, reforçando que é possível passar por essa fase com menos sofrimento quando há informação, acolhimento e tratamento adequado.
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“Falar sobre menopausa é uma forma de empoderar as mulheres”, disse a apresentadora, ao destacar que o diálogo aberto ajuda a combater o estigma e a solidão dessa etapa.
Em outra frase marcante, lembrou:
“Menopausa não é fim de nada. É um recomeço, com mais consciência, saúde e coragem.”
Quando uma figura tão conhecida se coloca nesse lugar vulnerável, ela autoriza outras mulheres a fazer perguntas que talvez nunca tenham feito nem ao próprio médico.
Recentemente a apresentadora lançou livro “Menopausa sem Mistério”, junto com o médico André Vinícius.
Claudia Raia: teatro, dores articulares e confusão hormonal
A atriz Claudia Raia fala de menopausa há anos nas redes sociais e entrevistas. Aos 58, ela levou o tema para o palco com o espetáculo “Cenas da Menopausa”, em que transforma, com humor, “esse assunto que ainda é tabu na sociedade” em conversa aberta com o público.
Em relatos recentes, a atriz contou que começou o climatério por volta dos 51 anos, vivenciando insônia, névoa mental e fortes dores articulares, sintomas que, por muito tempo, ela atribuiu ao excesso de exercícios físicos, até descobrir que estavam ligados à menopausa.
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Claudia também compartilhou a experiência de ter engravidado aos 55 anos, após já ter parado de menstruar, e explicou que hormônios utilizados em uma tentativa de tratamento de fertilidade acabaram estimulando o organismo. Ela mesma classificou esse período ─ gravidez, puerpério e retorno da menopausa, como “uma confusão”.
A história dela, amplamente repercutida, virou alerta médico sobre o uso de hormônios, os limites da fertilidade e a necessidade de acompanhamento especializado. Mais uma vez, um relato individual ajudou a ampliar um debate coletivo.
Outras vozes: Ivete, Angélica, Eliana, Luana Piovani e tantas mais
Fernanda, Adriane e Claudia não estão sozinhas. Em reportagens recentes, artistas como Ivete Sangalo, Angélica, Maria Clara Gueiros, Eliana, Claudia Ohana, Ingrid Guimarães e Cacau Protásio também abriram o jogo sobre ondas de calor, alterações de humor e desafios na vida sexual.
Luana Piovani, por exemplo, destacou nas redes sociais que falar abertamente dos sintomas “ajuda a desmistificar a menopausa e encoraja outras mulheres a procurarem ajuda”.
Cada depoimento, com sua linguagem e estilo, toca um grupo diferente de mulheres. E todas juntas ajudam a construir algo que faltava: um repertório público sobre o que é viver o climatério na prática.
Sintomas vão muito além das ondas de calor
Quando o tema aparece na mídia, muitas vezes o foco é o “calorão” – mas a lista de sintomas pode ser bem mais longa. Entidades médicas lembram que, além dos fogachos e suores noturnos, são comuns:
- insônia e cansaço constante;
- irritabilidade, labilidade emocional e tristeza;
- queda de libido e ressecamento vaginal, com dor nas relações;
- incontinência urinária;
- dores articulares;
- falhas de memória e dificuldade de concentração.
Estudos indicam que a maioria das brasileiras nessa fase sente sintomas que impactam a qualidade de vida, mas muitas não associam esses sinais à transição hormonal e acabam buscando respostas apenas em antidepressivos, “força de vontade” ou silêncio.
Quando uma famosa descreve, com detalhes, algo como “uma tristeza que parecia depressão” ou “dores que eu achava que eram da academia e eram da menopausa”, essa chave vira. A mulher em casa começa a ligar os pontos.
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Por que esse assunto explode agora?
Não existe uma única explicação, mas alguns movimentos ajudam a entender por que a menopausa ganhou tanta visibilidade nos últimos anos:
- Uma geração que não aceita mais o silêncio: muitas dessas famosas fazem parte de uma leva de mulheres que envelheceu falando de feminismo, direitos e autonomia sobre o próprio corpo. Levar essa coragem para o climatério é quase um desdobramento natural.
- Redes sociais como confessionário público: hoje, uma live ou um relato em vídeo viraliza, chega a milhões de mulheres, rende reportagens, programas especiais de TV e campanhas com especialistas.
- Indústria e saúde começando a olhar para essa fase: pesquisas recentes sobre impacto da menopausa na qualidade de vida, no trabalho e na saúde física e mental vêm ganhando espaço, mostrando que não se trata de frescura, e sim de um tema de saúde pública.
- Longevidade e novo olhar sobre envelhecer: viver mais significa passar mais tempo no climatério e na pós-menopausa. Ao mesmo tempo, muitas mulheres mantêm carreira, vida sexual, projetos e sonhos ativos, então não faz sentido encarar essa etapa como “fim de linha”.
As famosas não criaram esse movimento sozinhas, mas se tornaram suas embaixadoras mais visíveis. E, gostando ou não delas, o efeito é concreto: o tema entrou na roda.
O que esses relatos mudam na vida de quem está em casa
Ouvir histórias públicas de menopausa pode:
- Ajudar você a reconhecer sintomas – em vez de achar que está “ficando louca”, “preguiçosa” ou “difícil de conviver”, entender que há uma explicação hormonal e fisiológica.
- Incentivar a procurar atendimento adequado, de preferência com um(a) ginecologista que conheça bem o climatério e possa avaliar riscos, tratamentos e possibilidades de reposição hormonal ou outras terapias.
- Diminuir culpa e vergonha, especialmente em temas como queda de libido, secura vaginal e alteração de desejo sexual.
- Fortalecer redes de apoio: quando a conversa sai do privado, fica mais fácil combinar com amigas, parceiras, irmãs: “vamos falar disso juntas?”.
- Informação não substitui consulta médica, mas abre caminho. Ela faz você chegar ao consultório com perguntas melhores, com menos medo e mais clareza do que está vivendo.
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E agora, o que você pode fazer por você?
Se você está na faixa dos 40, 50, 60 anos e se reconhece em algumas dessas histórias, alguns passos podem ajudar:
- Observar e anotar sintomas (quando começaram, com que frequência, o que piora ou melhora).
- Levar essas anotações a um ginecologista ou profissional de saúde de confiança.
- Perguntar sobre todas as possibilidades de tratamento – hormonais e não hormonais – e sobre os riscos e benefícios em cada caso.
- Conversar com pessoas próximas sobre o que está sentindo, para não atravessar esse período sozinha.
- Buscar fontes confiáveis de informação sobre climatério, saúde da mulher e bem-estar.
Quando uma Fernanda Lima, um Adriane Galisteu, uma Claudia Raia ou qualquer outra mulher decide falar de menopausa em voz alta, ela abre uma fresta por onde muita luz entra. A partir daí, a conversa que realmente importa acontece dentro de casa, no consultório, no espelho.
Entre tantas vozes do mundo, também existe a sua. Escutá-la é um dos jeitos mais potentes de atravessar a menopausa com cuidado, dignidade e alegria possível.




