
A ginecologista Ana Maria detalha como a queda hormonal afeta o cérebro, interrompe o sono, influencia o peso, altera o humor e exige cuidados especiais para manter saúde
Nos últimos anos, a saúde da mulher 40+ tem recebido mais atenção, sobretudo quando o tema é sono. A insônia aparece como um dos sintomas mais frequentes da perimenopausa e da menopausa e afeta até 60% das mulheres, segundo entidades médicas.
A ginecologista Ana Maria Passos, referência no cuidado às mulheres maduras, explica que essa dificuldade para dormir não é um detalhe da fase, mas um sinal de que o corpo está enfrentando mudanças profundas.
A médica, que atua há quase duas décadas em Porto Alegre (RS) e se dedica ao estudo da longevidade e da reposição hormonal, passou a olhar com mais atenção para o tema quando ela mesma completou 40 anos.
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Ao sentir os primeiros sinais da perimenopausa, percebeu o quanto o diagnóstico tardio e a falta de informação dificultavam a vida das mulheres. Hoje, atende na AME Clínica e mantém o perfil Partiu dos 40, onde compartilha informações claras sobre essa fase da vida.
As mudanças hormonais que acontecem na perimenopausa e na menopausa influenciam diretamente o cérebro. É esse processo, segundo Ana Maria, que explica o aumento da insônia e a sensação de sono pouco reparador.
A queda hormonal atinge diretamente o cérebro
A insônia se torna frequente na menopausa porque os hormônios que sempre atuaram no sistema reprodutivo também têm função importante no cérebro. O declínio da progesterona e a flutuação do estradiol afetam a produção de neurotransmissores e interferem na geração de energia cerebral.
O resultado aparece na primeira noite mal dormida: sono leve, despertares constantes, dificuldade para relaxar e sensação de cansaço já pela manhã.
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Segundo a médica, esse tipo de sono não reparador intensifica outros sintomas comuns da fase.
“A insônia provoca mais cansaço, aumenta a ansiedade, gera maior irritabilidade e reduz o ânimo”, explica.
O que começa com algumas noites ruins pode se transformar em um ciclo contínuo de indisposição.
As ondas de calor interrompem o descanso
Além da ação hormonal no cérebro, sintomas como ondas de calor, suor noturno e ansiedade também atrapalham o ciclo natural do sono. Muitas mulheres acordam com sensação de calor intenso e precisam levantar para se recompor.
“O hipotálamo, área responsável por regular a temperatura corporal, fica mais sensível durante a menopausa, o que explica as crises de calor que surgem mesmo durante a madrugada.”
A ansiedade também interfere. Crises noturnas com palpitações, angústia e sensação de alerta impedem o corpo de entrar em um estado de descanso profundo.
“Para muitas mulheres, isso acontece mesmo nos dias em que se deitam cansadas”, afirma.
Noites interrompidas afetam peso, humor e saúde
Dormir mal altera o metabolismo. Durante o sono, o corpo realiza processos hormonais importantes, como a regulação do cortisol e a produção de melatonina.
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Quando essas etapas são interrompidas, o organismo responde com aumento do apetite, dificuldade de controlar a fome e maior tendência ao ganho de peso.
Ana Maria lembra que isso se reflete também no humor. Irritabilidade, falta de paciência e sensação constante de ansiedade aparecem com mais força quando o sono não cumpre sua função restauradora.
Quando a insônia se torna um sinal de alerta
A insônia exige atenção quando deixa de ser um episódio isolado. Em noites esporádicas, pode estar ligada à ansiedade, ao estresse ou a um dia mais exaustivo.
“Mas quando passa a ocorrer mais de três vezes na semana e interfere na produtividade, no bem-estar e na rotina, é o momento de procurar ajuda”, orienta a médica.
A persistência é o principal indicador de que o quadro necessita de avaliação profissional.
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O que pode ajudar no dia a dia
Alguns hábitos têm impacto direto no sono. A higiene do sono, conceito cada vez mais discutido, inclui reduzir o uso de telas à noite, evitar estímulos intensos e criar um ambiente mais tranquilo.
“Atividades leves, como leitura, chás e programas relaxantes, ajudam o corpo a entender que é hora de desacelerar”, explica.
Quando a insônia está diretamente ligada à menopausa, a reposição hormonal se mostra um tratamento eficaz. A progesterona via oral, por exemplo, é metabolizada em uma substância que atua nos receptores GABA do cérebro e facilita o sono de forma natural.
Para a médica, essa abordagem resolve o problema em grande parte dos casos, evitando o uso indiscriminado de medicações indutoras do sono.
“Esses medicamentos só são indicados por curto período e em situações de forte impacto emocional, sofrimento intenso ou prejuízos significativos na qualidade de vida.”
Uma fase que pede informação e apoio
A trajetória de Ana Maria mostra o quanto informação clara pode transformar a vida das mulheres. Com pós-graduação em Nutrologia e Longevidade Saudável, ela reúne conhecimento técnico e experiência prática para orientar suas pacientes nesta fase de tantas mudanças.
“O objetivo é que cada mulher entenda o que está acontecendo no próprio corpo e se sinta segura para buscar tratamento quando necessário.”
Ao tratar o sono como parte central da saúde feminina, a médica reforça que a menopausa não deve ser vista como um período de perdas, mas como um convite para olhar o corpo com mais atenção. Com orientação adequada, é possível restabelecer o descanso, equilibrar o humor e viver essa etapa com mais qualidade de vida.
Entrevista na íntegra com a médica Ana Maria Passos
Como começou seu trabalho com saúde da mulher 40+?
Depois da faculdade de Medicina, fiz residência em Ginecologia e Obstetrícia e, mais tarde, pós-graduação em Nutrologia. Comecei a me dedicar a cuidar das mulheres 40+ quando eu mesma fiz 40 anos, porque comecei a sentir os sintomas da perimenopausa. Passei a perceber como era difícil esse diagnóstico e o quanto as mulheres sofriam por falta de informação. Então, decidi estudar cada vez mais. Fiz pós-graduação em Saúde da Longevidade Humana e aprofundei meus estudos em reposição hormonal. Junto com a Nutrologia, tenho atendido essas mulheres com diagnóstico de perimenopausa e menopausa. Trabalho em Porto Alegre, na AME Clínica, e tenho um perfil dedicado a orientar mulheres, o Partiu dos 40, no Instagram. Atendo presencialmente e também online.
Por que o sono fica tão frágil nessa fase?
A questão do sono é muito prevalente. Os hormônios agem diretamente no cérebro. Pensamos muito neles em relação à gravidez, fertilidade e reprodução, mas atuam intensamente no cérebro e em todo o corpo. Com o declínio da progesterona e a flutuação do estradiol, surgem alterações na produção de neurotransmissores e na geração de energia cerebral. Por isso, há um impacto significativo no sono, que passa a ser leve e não reparador. Essa insônia aumenta a ansiedade, a irritabilidade, o cansaço e reduz o ânimo.
Como ondas de calor e ansiedade interferem?
Muitas mulheres acordam durante a noite porque estão suando ou sentindo muito calor. O calor intenso, conhecido como fogacho, é originado no cérebro, já que o hipotálamo percebe de forma acentuada a flutuação hormonal. A ansiedade também interfere, provocando palpitações, angústia e sensação de alerta, o que impede o descanso profundo.
Como noites interrompidas afetam peso e humor?
Durante o sono, ocorre uma série de secreções hormonais importantes. Quando há interrupções, o metabolismo fica prejudicado. Isso afeta a produção de melatonina e altera o cortisol, que tende a permanecer elevado. Como consequência, aumenta o apetite, a fome e o risco de ganho de peso. O humor também é afetado: a irritabilidade e a sensação de ansiedade aumentam.
Quando buscar ajuda médica?
É essencial observar a permanência. Episódios isolados podem estar ligados à ansiedade ou ao cansaço. Mas quando a insônia acontece mais de três vezes na semana e compromete a rotina, a qualidade de vida e a produtividade, é hora de buscar acompanhamento.
O que pode ajudar no cotidiano?
Cuidar da higiene do sono é fundamental. Evitar telas à noite e priorizar atividades leves facilita o processo de adormecer. Quando a causa é hormonal, a reposição resolve 100% dos casos. A progesterona via oral, metabolizada em alopregnenolona, atua nos receptores GABA e melhora significativamente o sono.
Quando considerar terapia hormonal ou medicação?
A terapia hormonal é a principal escolha quando a insônia está ligada à menopausa. É segura e eficaz. Já medicações indutoras do sono são evitadas e usadas apenas por curto período, em situações de grande sofrimento.
Quem é Ana Maria Passos?
Ana Maria Passos é ginecologista e obstetra com mais de 19 anos de experiência em Porto Alegre (RS). À frente da AME Clínica, atua com ciência, tecnologia e acolhimento, oferecendo acompanhamento integral ao longo das diferentes fases da vida feminina.
Com pós-graduação em Nutrologia e Longevidade Saudável, mantém um olhar atento à alimentação equilibrada, suplementação e reposição hormonal. É reconhecida por seu trabalho com perimenopausa, menopausa, endometriose, síndrome dos ovários policísticos, fertilidade, gestação e puerpério. Seu objetivo é tornar o conhecimento acessível e ajudar mulheres a fazer escolhas conscientes.
Com linguagem clara e humanizada, conecta-se especialmente com o público 40+, promovendo bem-estar físico e emocional. É fonte confiável para entrevistas, reportagens, podcasts e conteúdos sobre saúde feminina, nutrição e longevidade.




