Psicóloga Daiana Aparecida Flores da Cunha explica o que é Janeiro Branco, os sinais da sobrecarga emocional feminina e por que cuidar da saúde mental é urgente.

Janeiro é reconhecido como o mês da saúde mental. Desde 2014, o Janeiro Branco se consolidou como um dos maiores movimentos de conscientização do mundo, presente em todos os continentes por meio de ações psicoeducativas voltadas à prevenção do adoecimento emocional.

No Brasil, a campanha ganhou força institucional. Em Santa Catarina, tornou-se lei estadual em 2017. Em Chapecó, passou a ser lei municipal em 2020. Desde abril de 2023, o Janeiro Branco também é lei federal.

Durante o mês, palestras, caminhadas, entrevistas e ações públicas buscam desmistificar o cuidado com a mente e conscientizar a sociedade sobre a importância da saúde mental, inclusive nos ambientes de trabalho.

Para a psicóloga Daiana Aparecida Flores da Cunha, a campanha faz um convite que ainda é difícil para muitas mulheres: parar e olhar para si.

“A queixa mais recorrente na minha prática clínica é a sobrecarga emocional. Muitas vezes ela aparece como um pedido de ajuda invisível”, afirma.

Segundo Daiana, esse cansaço raramente é apenas físico. Ele nasce do acúmulo de papéis, das expectativas elevadas e da sensação constante de insuficiência.

Trabalho, casa, maternidade, relacionamentos e as demandas emocionais dos outros acabam sendo priorizados, enquanto o autocuidado fica em segundo plano.

Sinais que não devem ser ignorados

Pensamentos acelerados, excesso de tarefas, crises de ansiedade, dificuldade para dormir, problemas de memória e autocobrança intensa estão entre os sinais mais frequentes.

“Todos esses sintomas indicam a importância de buscar ajuda e se priorizar. Não podemos dar conta de tudo, nem ser fortes o tempo todo”, destaca.

A psicóloga reforça que a culpa é um fator central nesse processo. “Existe uma construção histórica e cultural que colocou a mulher no papel de cuidadora. O autocuidado foi visto como egoísmo, e isso ainda pesa”, explica.

Romper com esse modelo envolve aprender a dizer não, estabelecer limites e compreender que cuidar da própria saúde emocional é uma necessidade.

Por que tantas mulheres adiam o cuidado psicológico

Segundo Daiana, muitas mulheres seguem validando as necessidades dos outros enquanto minimizam o próprio sofrimento. A ideia de que “vai passar” ou de que existem prioridades maiores acaba adiando o cuidado emocional.

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“Muitas dessas mulheres são mães solo, sem rede de apoio. Elas precisaram ser fortes, dar conta de tudo e não tiveram espaço para serem cuidadas e escutadas”, observa.

Práticas que fortalecem a saúde mental

Além da psicoterapia, atitudes simples fazem diferença. Buscar presença no aqui e agora, praticar respiração consciente, respeitar limites e reservar tempo para si são práticas importantes.

“Apreciar a própria companhia, retomar um hobby, ler, cozinhar algo que gosta, sem julgamentos, ajuda a fortalecer a saúde mental”, orienta.

Falar também é essencial. “O silêncio foi ensinado às mulheres como forma de não incomodar. Falar sobre o que dói organiza pensamentos, regula emoções e promove autocuidado”, afirma.

Cuidar da mente é necessidade

Para a psicóloga, saúde mental não é luxo nem exagero. É necessidade. O Janeiro Branco pode ser um ponto de partida para rever hábitos, metas e a forma como as mulheres se relacionam consigo mesmas.

“Respeitar limites, dizer não quando necessário e aprender a ser líder de si mesma é fundamental”, reforça.

Daiana lembra que não precisamos dar conta no modo automático, mas sobre se dar conta no modo consciente.

“Cuidar de si não é egoísmo. É responsabilidade emocional. Sua saúde mental também importa.”