
A venezuelana Carolina Cubillán conta como chegou ao Brasil com a família e construiu, em Chapecó, um negócio feito de trabalho, fé e reconstrução
Recomeçar a vida em outro país raramente é uma escolha simples. Para Carolina Cubillán de Durand, hoje com 44 anos, foi uma decisão tomada no limite. Natural da Venezuela, ela carrega uma trajetória marcada por deslocamento forçado, fé, perdas profundas e a necessidade de reconstruir tudo do zero.
Desde 2019, vive em Chapecó, no Oeste de Santa Catarina, onde criou, ao lado do marido e da filha, a DICI Personalizados, um negócio familiar que nasceu da necessidade e se transformou em projeto de vida.
Uma saída inevitável
Carolina nasceu e cresceu no estado de Zulia, na Venezuela. Mais tarde, mudou-se para Mérida, cidade pela qual diz ter se apaixonado ainda criança. Foi ali que se formou, se casou, teve a filha e construiu a vida familiar.
“Nasci e cresci em Zulia e apenas depois de me formar fui morar em Mérida, porque sempre fui apaixonada por essa cidade. Ali me casei, tive minha filha e morei até vir para o Brasil.”
Até 2019, a família mantinha um empreendimento que funcionava bem. A crise que se aprofundou no país, no entanto, mudou completamente essa realidade.
::: Vale a leitura >>> Loivete cria experiências que unem sabores, histórias e culturas
“Em 2019 foi o ano mais crítico para nós. Pela situação econômica, política e social da Venezuela, chegamos num ponto onde não tínhamos eletricidade, nem gás para cozinhar, nem internet, nem trabalho.”
A escassez atingiu o básico. “A comida era excessivamente cara e estávamos passando fome.” O momento mais difícil veio quando a filha começou a apresentar sinais de desnutrição.
“Nossa filha chegou quase no ponto de desnutrição. Essa foi a gota que transbordou o copo.”
A decisão pelo Brasil
Cristãos, Carolina e o marido buscaram na fé uma direção. “Acreditamos que Deus responde as nossas orações.” Depois de uma longa conversa, decidiram fazer um período de jejum e oração para entender se deveriam deixar o país e para onde ir.
A resposta veio no dia seguinte. “Uma amiga me ligou para marcar a despedida. Ela estava indo para o Brasil.”
Junto com o abraço, ela entregou um papel de caderno com contatos de pessoas que poderiam ajudar no caminho até a fronteira, na travessia e na troca de dinheiro.
“Nossa decisão foi tomada nessa hora: iríamos para o Brasil.”
::: Leia também >>> Mariani Ramirez impulsiona a Roma Cookies com capacitações do Chapecó com Elas
O marido começou a estudar português pelo aplicativo Duolingo. A família passou a vender tudo o que podia para reunir o dinheiro da viagem.
“Começamos a vender nossas máquinas de estamparia, materiais como canecas, camisetas, insumos em geral e artigos do lar, como geladeira, fogão, camas e pertences.”
Três meses depois, em setembro de 2019, fecharam a porta da casa onde haviam construído a vida. “Fechamos a porta do nosso lar sem olhar para trás.”
A chegada cheia de esperança e o acolhimento
A viagem até o Brasil durou 12 dias. A família participou da Operação Acolhida, da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.
“Chegamos em Pacaraima e passamos cinco dias na fronteira fazendo toda a documentação necessária para ingressar legalmente no país, com carteira de trabalho, CPF e protocolo de residência.”
Depois seguiram para Boa Vista, onde ficaram dois dias em um abrigo da igreja. Foi ali que conversaram com o responsável pelo projeto e explicaram o desejo de voltar a trabalhar com design gráfico e personalizados.
“Ele nos disse: ‘Essa é uma cidade em crescimento, onde vocês poderão crescer junto com a cidade’.”
O destino indicado foi Chapecó. No dia 1º de outubro de 2019, a família chegou à cidade. Um grupo de pessoas os aguardava com doações de roupas, alimentos, itens domésticos e até uma casa já alugada.
“Nunca vou esquecer o quanto fomos bem acolhidos.”
A chegada foi marcada por contraste emocional.
“Viemos só com algumas roupas numa mala de 23 quilos e com o coração quebrado de deixar tudo para trás, mas cheios de esperança e otimismo por recomeçar do zero.”
Como Carol e família tiveram de aprender tudo novamente
O início da adaptação foi difícil. “Não entendíamos quase nada.” Houve ajuda para matricular a filha na escola, mesmo no fim do ano letivo, com o objetivo de aprender o idioma e conhecer os colegas. A família também foi auxiliada para se cadastrar no posto de saúde.
“Foi um impacto muito grande receber medicamentos de graça, quando isso na Venezuela era tão caro.”
A ideia inicial era que o marido trabalhasse no que fosse possível, enquanto Carolina ficaria em casa cuidando da filha e se adaptando à nova rotina.
::: Saiba mais sobre >>> Reconhecimento ao trabalho de Miriam Santiago leva Sítio Rosa do Vale à Anuga 2025
A família havia conseguido trazer um notebook e planejava, mais adiante, retomar os trabalhos como designers.
O choque cultural também esteve presente nos detalhes do cotidiano.
“No nosso primeiro dia em Chapecó, percebemos algo muito estranho: as pessoas tinham uma taça de madeira com um pó verde e um canudo de metal, onde colocavam água quente e todos tomavam da mesma taça. Achei muito estranho o chimarrão”, conta, rindo.
Pouco depois, o marido começou a trabalhar em um frigorífico, mas sofreu uma lesão na coluna e precisou sair antes mesmo do início da pandemia. Com o isolamento, a família ficou em casa, sem domínio do idioma, sem trabalho fixo e com contas para pagar.
“Foi aí que começamos a fazer coisas que nunca teríamos imaginado.”
Durante a pandemia, Carolina e a filha viveram juntas um processo de reaprendizado. “Tivemos que aprender a ler e escrever juntas. Mesmo eu sendo formada como designer, desde o momento que cruzamos a fronteira tivemos que aprender tudo de novo como criancinhas.”
Cores, números, dias da semana, meses do ano, nomes das frutas e objetos. “Até o mais mínimo era totalmente novo para nós.”
Como nasceu a DICI
Foi nesse período que a família retomou o design gráfico por meio de plataformas internacionais. Atenderam clientes da Espanha, do Chile e do Brasil. Para emitir notas fiscais, surgiu a necessidade de formalização. Assim nasceu a DC Designers, formada pelos sobrenomes Durand e Cubillán.
Com o tempo, conseguiram comprar um computador, impressoras e as primeiras máquinas para produzir canecas e camisetas. O negócio passou a oferecer não apenas serviços de design, mas também produtos físicos personalizados.
O nome, no entanto, precisou mudar. “Ninguém conseguia pronunciar certo.” A solução veio com criatividade. “Todos pronunciavam ‘de-ce’. Então pensamos: nosso negócio não desce, ele vai para cima.”
Assim surgiu a DICI Personalizados. “DICI é a soma do D de Durand e do C de Cubillán, com os ‘i’ da pronúncia em inglês. E ‘Personalizados’ porque descreve melhor nossa área de atuação.”
::: Para ler >>> Valéria Furini criou uma marca de saúde com alma feminina
Hoje, a DICI produz mais de 20 tipos de produtos, com destaque para canecas e camisetas. Mousepads, bottons, cartões de visita, ecobags, copos e chaveiros também fazem parte do catálogo.
“Produzimos peças personalizadas com coração”, afirma Carolina, que tem mais de 20 anos de formação como designer.
Raízes fortes e futuro planejado
Trabalhar em casa exige equilíbrio. “Às vezes é difícil separar lar e negócio.” Para isso, a família criou rituais. “À noite desligamos o computador e as luzes daquele espaço. Isso significa que a DICI está fechada.”
Empreender em outro país trouxe aprendizados constantes.
“Tivemos que aprender como funciona ser MEI, os impostos, as notas fiscais, a concorrência, os fornecedores e testar materiais para garantir qualidade.”
Também exigiu cuidado com as relações. “Fora da DICI somos marido e mulher, somos pais.”
A fé segue como alicerce. “Nossa vida é centrada em Cristo.”
::: Vale a leitura >>> Eva inaugura a primeira papelaria aos 60 anos
O apoio de pessoas da igreja, como Claudete e Alessandra, foi fundamental. A internet e o WhatsApp permitiram manter contato com a família distante e voltar a trabalhar com design gráfico.
Hoje, Carolina afirma que criou raízes em Chapecó. “Esta cidade e este país ganharam nosso coração.” O futuro é pensado com calma e esperança.
“Imagino a DICI Personalizados com sede própria, um lugar onde possamos receber clientes e mostrar o que fazemos.”
A imagem que resume essa trajetória é simples e poderosa.
“Como um pássaro que teve que fazer o ninho numa árvore diferente e se acostumou tanto que aprendeu a amar o novo lugar.”




