
Cirurgião João Baroncello explica por que a bariátrica exige mudança de rotina, disciplina e acompanhamento, e como o procedimento atua no controle da obesidade
A cirurgia bariátrica ainda é vista por muitas mulheres como um caminho mais rápido para emagrecer. Mas a realidade é outra. O procedimento não substitui esforço nem resolve sozinho uma relação difícil com a comida.
Ele entra como parte de um tratamento para uma doença crônica, que exige mudança de rotina, acompanhamento e disciplina.
Com mais de 20 anos de experiência, o médico cirurgião João Baroncello acompanha de perto esse processo e explica o que realmente muda na vida de quem passa pela cirurgia.
Nesta entrevista, o especialista fala sobre expectativas, desafios, saúde e o papel da bariátrica além da estética.
Por que muitas mulheres ainda veem a bariátrica como um caminho mais fácil para emagrecer?
A cirurgia bariátrica foi apresentada como “perda de peso rápido” e duradouro, mas isso não significa que substitui o esforço, tanto para gastar energia para atividade física, quanto uma reeducação alimentar. A verdade é diferente, o procedimento não é um atalho, é uma ferramenta médica para tratar uma doença crônica, como a obesidade, quando o risco para a saúde já é alto.
E tem um ponto importante: muitas mulheres passaram a vida inteira “tentando sozinhas”, com dietas que acabavam tendo o efeito sanfona, além da culpa e muita cobrança estética. Quando ouvem falar em cirurgia, alguns imaginam “finalmente algo que vai dar certo sem sofrimento”. Só que a cirurgia exige mudança de rotina, de mentalidade e de comportamento, e isso pode ser mais desafiador do que muita gente imagina.
A cirurgia bariátrica ajuda a tratar não só o excesso de peso, mas outras doenças relacionadas, como: Diabetes tipo 2, apneia do sono, pressão alta, colesterol elevado, dores articulares e problemas digestivos. A cirurgia é a melhor ferramenta para contribuir na perda de peso.
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O que é preciso considerar antes de fazer a cirurgia?
A cirurgia é a melhor ferramenta para perda de peso, porém, não funciona sozinha, ter que ser acompanhada de atitudes e acompanhamento com uma equipe multidisciplinar, pois muitas delas exigirão disciplina, seja na hora da alimentação ou na prática de atividade física.
Tudo começa na decisão de querer mudar para ter mais qualidade de vida e começa com o diagnóstico correto e com alterações no dia a dia, com prática de atividade física, acompanhamento psicológico e acompanhamento nutricional. Envolve a atuação de vários profissionais além do cirurgião, como psicólogos, nutricionistas e educadores físicos neste processo que tem o objetivo de ajudar a pessoa a viver melhor.
No Brasil, o Conselho Federal de Medicina, reconhece várias técnicas cirúrgicas, mas as altamente recomendadas são o Bypass em Y de Roux e o Gastrectomia Vertical – Sleeve Gástrico. Outros procedimentos como o Bypass Gástrico anastomose única ou Gastrectomia Vertical com anastomose duodeno-ileal, podem ser empregadas como alternativas de acordo com as particularidades de cada paciente.
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Quais mudanças reais a paciente precisa assumir antes e após a cirurgia?
Precisa estar disposto, tomar uma decisão que precisa mudar ao estilo de vida, assumindo uma nova mentalidade na decisão de redução de peso. É importante saber, que como qualquer cirurgia de grande porte, ela precisa ser planejada junto a uma equipe multiprofissional: nutricionista, psicóloga para mudar o estilo de vida e para reaprender a se alimentar.
No pós-operatório, com o é uma cirurgia de grande porte, ele tem algumas regras como: iniciar com uma dieta que, gradativamente, vai aumentando conforme a aceitação do paciente. Assim, como na medida que vai evoluindo, também passa as atividades físicas e orientação nutricional. Nas mulheres, que usam anticoncepcional, depende o tipo do procedimento, será necessário a alteração do medicamento.
Como ficam as questões emocionais com a comida depois da bariátrica?
Cada técnica cirúrgica possui suas peculiaridades, por isso a necessidade do paciente ser acompanhado no pré-operatório pela equipe multidisciplinar. O paciente quando vai para a cirurgia já está preparado para a quantidade de comida que passará a se alimentar.
Isso porque, o processo anatômico também melhora, com o estômago menor e, logo, terá mais saciedade. O procedimento cirúrgico desvia o intestino, com o objetivo de diminuir a absorção e a cirurgia também é metabólica, pois diminui o hormônio da fome (grelina) e aumenta o da saciedade (GLP-1).
O procedimento elimina o esforço ou exige ainda mais disciplina no dia a dia?
Sempre falo que é 50% vem da cirurgia e 50% do esforço emocional, porque quando você esta emocionalmente equilibrado, você terá disciplina para se alimentar, fazer exercícios, pois é importante o gasto calórico.
A bariátrica possibilita a perda de peso, melhora das comorbidades associadas, mas a manutenção deste caminho, cabe ao paciente. Não é só a cirurgia bariátrica, é um conjunto de fatores, para ser eficiente e duradouro. É todo um empenho e motivação para que ele se alimente e realize atividade física.
Existe idade mínima e máxima para fazer bariátrica? Mulheres acima dos 40 ou 50 anos podem fazer com segurança?
Até o ano passado, pacientes com Índice de Massa Corporal (IMC) acima de 40, ou entre 35 e 40 com alguma comorbidade, a cirurgia bariátrica era indicada.
Atualmente, com a resolução nº 2429/ 2025 do Conselho Federal de Medicina, houve modificações e passou a ser autorizado o procedimento em pacientes com IMC mais baixo, entre 30 e 35 com doenças associadas como diabetes tipo 2, doença cardiovascular grave, doença renal, apneia do sono, fibrose, refluxo gastroesofágico com indicação cirúrgica.
E mulheres acima de 40 anos podem fazer a cirurgia, claro. Hoje, são analisados as condições clínicas para submeter a cirurgia de grande porte, assim como também tem um perfil para ser submetido a essa cirurgia que é avaliado através da equipe multiprofissional.
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Em que momento a bariátrica deixa de ser estética e passa a ser uma questão de saúde?
Então, a obesidade é um dos maiores desafios de saúde pública do século XXI, que caracteriza uma doença crônica, progressiva, recidivante, e que é multifatorial. E ela é amplamente evitável por meio de intervenções, onde uma das melhores ferramentas, é a cirurgia bariátrica.
A cirurgia, que não é considerada estética, ela tem o objetivo de tratar as comorbidades: hipertensão, diabetes tipo 2, apneia do sono, esteatose hepática, dores articulares incapacitantes, aumento de risco cardiovascular. Eu costumo resumir que a bariátrica não é “cirurgia para ficar magra”, é a cirurgia para reduzir risco e devolver vida.
Existe frustração quando a paciente percebe que a cirurgia não é um atalho?
É importante saber que a cirurgia, quando o paciente quer um resultado imediato, isso pode ser frustrante porque reduzir peso exige uma mudança do estilo de vida. Então, e a cirurgia bariátrica é a melhor ferramenta que existe, mas ela tem que vir acompanhado de uma mudança do estilo de vida, da maneira de se alimentar, da maneira de se exercitar. Tem que entender que a obesidade é um problema crônico, que ele tem controle e depende do empenho do paciente.
Então, é importante que a cirurgia não seja tratada como uma coisa imediatista. Como é uma doença crônica, tem que ser tratada de uma maneira contínua, porque ela tem um controle que vai depender de vários fatores: cirurgia, entendimento, acompanhamento e a disciplina.
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O que costuma surpreender mais as mulheres que passam pela bariátrica?
As mudanças são bruscas. A intensidade das mudanças físicas, comportamentais e emocionais que acompanham a diminuição do peso é muito significativa. Quando o paciente apresenta aquele dismorfismo corporal, à medida que vai reduzindo o peso dia após dia, muitas vezes entra em um estado de euforia.
Nesse momento, ele se estimula muito mais a realizar atividade física, com mais motivação. A autoestima melhora e ele consegue seguir as regras: fazer atividade física, se alimentar de maneira adequada, se alimentar de uma maneira saudável.
Com isso, melhora o estado de humor, melhora o aspecto físico e melhoram as comorbidades. Pacientes que eram diabéticos, muitas vezes reduzem a quantidade de medicamentos e, em alguns casos, podem até se curar totalmente da diabetes e da hipertensão arterial. Além disso, aumenta a fertilidade nas mulheres quando elas passam a reduzir de peso.
Quais são os maiores desafios enfrentados pelas mulheres no pós-operatório?
Os desafios são naturalmente bem aceitos e bem tolerados no pós-operatório, porque as mulheres, à medida que veem no dia a dia a melhora das comorbidades e da autoestima, passam a encarar esse processo de forma mais positiva.
Elas aceitam muito naturalmente a alimentação adequada, até porque a cirurgia provoca uma alteração anatômica que diminui o apetite. Com isso, sentem-se mais motivadas a seguir o regramento da alimentação, as regras para fazer atividade física e para repor os suplementos e as vitaminas.
Então, os desafios das mulheres no pós-operatório são, de modo geral, naturalmente bem tolerados e aceitos, justamente porque elas percebem, na prática, os benefícios físicos, emocionais e na qualidade de vida.
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Quais as desvantagens (riscos e pontos de atenção) da cirurgia?
A cirurgia é grande porte, portanto envolve riscos que são inerentes ao próprio procedimento, principalmente quando o paciente apresenta alguma doença associada. No entanto, hoje ela está tão sistematizada e padronizada que as complicações diminuíram muito. As complicações imediatas, que são as mais temíveis, como trombose e fístula, tornaram-se menos frequentes.
Os pacientes são preparados em termos de alimentação, uso de anticoagulantes, o que reduz significativamente as complicações, especialmente nas primeiras semanas, que é o período mais delicado. Claro que riscos sempre existem, mas as vantagens da cirurgia são superiores aos riscos inerentes ao procedimento.
Atualmente, com toda a evolução técnica e o acompanhamento adequado, os riscos diminuíram muito, e as cirurgias bariátricas apresentam muitas vantagens quando bem indicadas e conduzidas.





