
Enquanto os diagnósticos de Alzheimer crescem no Brasil, familiares encontram no humor e na rotina afetiva uma forma de tornar o cuidado mais leve e humano
Aos 88 anos, Amália Theresa da Silva, hoje com 96 anos, recebeu o diagnóstico de Alzheimer. Para a família, foi um choque. O neto e cuidador Raul Junior lembra que até chegar ao diagnóstico foi um longo caminho.
“Foi duro, difícil de assimilar, porque o Alzheimer não vem com um manual. Ele é muito demorado, existem muitos outros tipos de demência que se parecem. Foi preciso fazer exames, testes clínicos e buscar o parecer dos médicos.”
Com o avanço da doença, a família precisou se adaptar. Terapias, fisioterapia e estímulos cognitivos deram lugar ao humor como ferramenta de cuidado.
Raul criou a personagem “Vó da Pomba” nas redes sociais, mostrando momentos da rotina da avó, que hoje tem mais de 10 milhões de seguidores.
“Mostramos como o bom humor deixa o cuidado mais leve, mas não é fácil cuidar de um idoso com Alzheimer. É como cuidar de mais de dez crianças de dois anos.”
Crescimento do Alzheimer no Brasil e no mundo
O Alzheimer é uma doença ligada ao envelhecimento, e o número de casos tende a crescer à medida que a população envelhece. Mais de 50 milhões de pessoas vivem com a doença no mundo, e esse número deve triplicar até 2050.
No Brasil, dados do Conselho Nacional de Saúde (CNS) indicam que 1,8 milhão de pessoas foram diagnosticadas até 2019. A projeção para 2050 é de 5,7 milhões de brasileiros, um aumento de 206%.
Essa mudança reflete a inversão da pirâmide etária: em duas décadas, haverá mais idosos do que jovens no país.
Sinais de alerta que exigem atenção
O geriatra Clóvis Cechinel, do Hospital São Marcelino Champagnat, em Curitiba, alerta que esquecimentos frequentes são apenas um dos sinais iniciais.
Segundo o médico, além da perda da memória recente, esquecer informações recém-aprendidas, compromissos ou onde colocou objetos com frequência pode ser um sinal.
“Também é importante observar dificuldades para planejar e resolver problemas, desorientação no tempo e espaço, perder-se em lugares familiares, confundir onde está e problemas de linguagem.”
Mudanças de humor, irritabilidade, depressão, ansiedade, retraimento social e perda de interesse por atividades antes prazerosas também devem ser observadas.
“O diagnóstico é muito complexo. Nenhum sinal deve ser desconsiderado. O apoio familiar e a consulta com especialistas são fundamentais”, acrescenta.
Pesquisa e desafios no desenvolvimento de tratamentos
Pesquisas indicam que as placas de amiloide, características do Alzheimer, começam a se formar cerca de 20 anos antes dos primeiros sintomas.
Um estudo da Universidade de Columbia revelou que sinais de risco podem ser identificados em adultos na faixa dos 20 anos.
Segundo o farmacêutico Liberato Brum Junior, gerente de inovação e pesquisa clínica da Prati-Donaduzzi, o desenvolvimento de medicamentos enfrenta desafios significativos. Ele diz que os estudos clínicos são longos, caros e apresentam alto risco de insucesso.
“Nesse cenário, a identificação precoce da doença, por meio de biomarcadores mais precisos, e o desenvolvimento de modelos experimentais mais representativos são essenciais para avançar nas pesquisas e encontrar tratamentos que melhorem a qualidade de vida dos pacientes.”
Afeto e rede de cuidado
No caso de Amália, todos os familiares se envolveram nos cuidados. Cerca de dois anos após o diagnóstico, ela passou a ter memória de 15 segundos, repetindo sempre as mesmas frases.
Raul lembra que quem recebe o diagnóstico na família precisa ter em mente que a doença não vai deixar de existir e que aquela pessoa vai deixar de ser quem sempre foi, dizendo coisas que machucam e, muitas vezes, ficando agressiva.
“É fundamental contar com uma rede de cuidados e, acima de tudo, lembrar de cuidar de si mesmo.”
A história da “Vó da Pomba” mostra que, mesmo diante de desafios complexos como o Alzheimer, é possível transformar o cuidado diário em momentos de afeto, leveza e conexão familiar.




