A pesquisadora e médica Fabiane Berta destaca avanços no tratamento e que muitas mulheres ainda sofrem sem diagnóstico correto

Mais de 40 milhões de brasileiras vivem hoje a fase do climatério ou da menopausa, e mais de 70% delas apresentam sintomas que afetam a saúde física, emocional e cognitiva.

Para a médica e pesquisadora Fabiane Berta, o desafio atual é fazer com que o conhecimento científico avance na mesma velocidade das políticas públicas e da atenção médica oferecida às mulheres.

Sintomas como insônia, calorões, irritabilidade, ressecamento vaginal e perda da libido são conhecidos há décadas. Mas os estudos mais recentes apontam uma lista crescente de sinais neurológicos e metabólicos que também fazem parte da transição hormonal feminina.

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“O que vemos no consultório, e os dados globais comprovam, é que muitas mulheres chegam com queixas de lapsos de memória, dificuldade de concentração, crises de ansiedade, cansaço profundo ou alterações na sensibilidade, sem imaginar que estão entrando no climatério.”

Fabiane Berta, médica, pesquisadora e fundadora do MyPausa, movimento que lidera o estudo RENEW, primeiro registro nacional da menopausa, mapeando os 27 estados brasileiros para compreender de fato a realidade das mulheres nessa fase da vida.

Estudos e pesquisas revelam novos sintomas da menopausa

Entre os sintomas clássicos associados à menopausa estão ondas de calor (fogachos), suor noturno, insônia, secura vaginal, queda da libido, irritabilidade, aumento de peso e dores articulares.

No entanto, estudos de neuroimagem e análises hormonais têm revelado sintomas menos conhecidos, porém igualmente debilitantes, como:

  • lapsos de memória e dificuldade de foco.
  • sensação de “névoa mental”
  • ansiedade repentina
  • queda de produtividade cognitiva
  • zumbidos
  • palpitações sem causa cardíaca
  • sensibilidade à luz e ao som
  • depressão de início tardio
  • problemas digestivos.

A médica lembra que muitas mulheres são encaminhadas para neurologistas, psiquiatras ou gastroenterologistas sem nunca terem seus hormônios analisados.

“Quando a saúde pública e até a saúde privada falham em reconhecer o impacto do declínio hormonal, condenam essas mulheres a um ciclo de medicalização ineficaz e sofrimento silencioso.”

Avanços no tratamento da menopausa

Entre os tratamentos mais avançados utilizados em países que já adotaram protocolos públicos para menopausa, destacam-se:

  • Exames de sangue que respeitam o perfil hormonal individual da paciente.
  • Implantes hormonais subcutâneos (pellets), sob acompanhamento médico.
  • Adesivos transdérmicos e géis de estrogênio vaginal, com absorção controlada e menor impacto hepático.
  • Nutracêuticos e fitoterápicos inteligentes (smart drugs)

Para Fabiane, o grande desafio no Brasil é o acesso desigual aos cuidados.

“Temos ciência, temos protocolo, temos medicamentos. Mulheres vulneráveis com baixo poder aquisitivo continuam recebendo antidepressivos e remédios de tarja preta.”

A médica reforça que, apesar da prevalência dos sintomas e das consequências da menopausa para a saúde feminina, as pesquisas sobre o tema ainda são subfinanciadas e negligenciadas.

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“As consequências dessa falta de atenção são sombrias. Encarar essa fase costuma ser ainda mais difícil quando o sistema de saúde não está preparado. Nada justifica a ignorância. É urgente incluir todas as mulheres nesse debate.”

A fundadora do movimento MyPausa também destaca a importância de reconhecer as múltiplas dimensões do que é ser mulher.

“Somos plurirraciais e multiculturais, e quando falamos sobre mulheres, precisamos contemplar todas elas. Não somos universais; somos plurais. É fundamental entender que, quando apenas um grupo avança, não estamos realmente falando de todas as mulheres, mas apenas de uma parte delas”, finaliza a médica.