
Em dez anos, o estado viu um salto preocupante nos diagnósticos. Baixa adesão à vacina, desinformação e falta de prevenção ajudam a explicar o cenário.
O crescimento dos casos de câncer do colo do útero em Santa Catarina expõe um problema silencioso, mas crescente, na saúde feminina. Em dez anos, o número de diagnósticos saltou de seis para 849.
O avanço, revelado por um estudo da Revista da Associação Catarinense de Medicina, indica que a doença segue avançando mesmo sendo amplamente evitável com vacinação e exames preventivos.
Em uma década, os casos de câncer do colo do útero em Santa Catarina aumentaram 141 vezes. O estudo publicado em 2023 mostra que os registros passaram de seis, em 2013, para 849 em 2023.
No país, o Ministério da Saúde prevê 17 mil novos diagnósticos anuais entre 2023 e 2025, o que corresponde a 15,38 casos por 100 mil mulheres. Segundo o Atlas de Mortalidade por Câncer, 6.606 óbitos foram registrados em 2021.
A ginecologista e obstetra Tiele Almeida Mattjie Gaiardo explica que a doença é causada pelo papilomavírus humano (HPV), transmitido na relação sexual.
Segundo ela, a infecção persistente pelo vírus é o principal fator de risco para o desenvolvimento da doença.
“Também contribuem para o aumento do risco o tabagismo, início precoce da atividade sexual, múltiplos parceiros, uso prolongado de anticoncepcional oral e a baixa aderência a vacinação do HPV”.
Prevenção do câncer do colo do útero
A vacina contra o HPV passou a fazer parte do calendário do Ministério da Saúde em 2014. Disponível gratuitamente pelo SUS, ela protege contra os tipos do vírus mais relacionados ao câncer e às verrugas genitais. A imunização é destinada a meninas e meninos de 9 a 14 anos, além de pessoas imunossuprimidas até 45 anos.
O ginecologista Raulério de Campos Papini explica que existem vacinas bivalente, quadrivalente e nonavalente, todas desenvolvidas para estimular o organismo a produzir anticorpos contra os tipos mais oncogênicos do HPV.
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Mesmo quem já teve contato com o vírus pode se beneficiar da imunização, disponível também na rede privada para mulheres até 45 anos e homens até 26.
A vacina é contraindicada apenas para pessoas com alergia grave a algum de seus componentes e gestantes. Nesses casos, o uso é adiado para o pós-parto.
Desafios da vacinação
A ginecologista Daiane Schneider observa que a cobertura vacinal ainda está abaixo do ideal. Em muitas regiões do país, fica abaixo de 60%, enquanto a meta da Organização Mundial da Saúde é de 90%. Para ela, a baixa adesão tem relação direta com a falta de informação.
“Alguns fatores que ajudam a explicar essa realidade são a falta de orientação sobre a vacina e o mito de que ela estimularia uma iniciação sexual precoce. Há muita resistência por parte de pais e responsáveis”.
Para Daiane é fundamental desenvolver dois trabalhos específicos. “Um voltado às escolas e outro aos profissionais da saúde para que possam orientar os pacientes sobre a importância da vacina e esclarecer dúvidas sobre ela”.
Exames e acompanhamento
Entre as estratégias de prevenção, o exame Papanicolau continua sendo essencial. Raulério reforça que ele detecta alterações antes que elas evoluam para câncer.
“É um exame simples que detecta alterações nas células do colo do útero antes que virem câncer. Por isso, atualmente é a principal forma de prevenir a doença”.
A triagem costuma iniciar entre 21 e 25 anos para mulheres que já tiveram atividade sexual. O exame é anual, podendo passar para intervalos de dois ou três anos após dois resultados consecutivos normais.
Outros exames que podem ser indicados incluem:
- Teste de HPV (DNA ou RNA): identifica a presença do vírus e pode ser feito a partir dos 30 anos, com intervalo de cinco anos quando usado como triagem primária.
- Colposcopia: indicada quando há alteração no preventivo. Permite observar o colo do útero com mais detalhes e coletar material para biópsia.
Tratamento
O câncer do colo do útero tem evolução lenta e, por isso, pode não apresentar sintomas no início. Nos estágios mais avançados, pode ocorrer sangramento vaginal intermitente ou após a relação sexual, secreção anormal, dor durante o sexo, desconforto abdominal e queixas urinárias ou intestinais.
Daiane explica que as terapias variam conforme o estágio e o desejo de preservar a fertilidade.
“Ele varia desde conização (procedimento cirúrgico que remove uma parte do colo do útero em forma de cone) até histerectomia radical (cirurgia que remove o útero, o colo do útero, parte da vagina e tecidos adjacentes), podendo envolver ainda radioterapia e quimioterapia”.
Ela reforça a importância do diagnóstico precoce. A médica explica que uando o câncer no colo do útero é diagnosticado precocemente, denominado estágio 1, a sobrevida em cinco anos pode chegar até 90% ou mais.
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Agora, quando é diagnosticado em estágios mais avançados, a sobrevida pode ser menor do que 50% em cinco anos. Isso reforça a importância da prevenção, com vacinas, realização do preventivo e acesso ao diagnóstico.
“Porém, é importante ressaltar que a melhor forma de prevenir o HPV é a vacinação, por isso é fundamental intensificar as campanhas de conscientização da população”.
Em março de 2024, o teste de HPV foi incorporado ao SUS, permitindo detecção precoce com tecnologia de biologia molecular (PCR).




