Mais de 200 anos depois, a escritora britânica Jane Austen continua atual ao falar de independência, dinheiro, casamento, escolhas e das pressões que cercam a vida das mulheres

Jane Austen escreveu sobre mulheres em uma época em que elas tinham poucas possibilidades de decidir o próprio destino. Não podiam votar, tinham acesso limitado à educação e ao trabalho e, em muitos casos, dependiam de um casamento para garantir segurança financeira e posição social.

Nascida em 16 de dezembro de 1775, em Steventon, no condado de Hampshire, na Inglaterra, Jane cresceu em uma família com oito filhos. Era filha do reverendo George Austen e passou boa parte da vida no sul da Inglaterra.

Viveu em Steventon, Bath, Southampton e, a partir de 1809, em Chawton, onde morou com a mãe, a irmã Cassandra e a amiga Martha Lloyd. Foi nessa casa que encontrou estabilidade para escrever, revisar e encaminhar para publicação as obras que a transformariam em um dos grandes nomes da literatura inglesa.

Jane Austen nunca se casou e não teve filhos. Em uma época em que o casamento era considerado praticamente o destino esperado para uma mulher de sua condição social, ela construiu uma trajetória que, de certa forma, também dialoga com as questões presentes em seus próprios romances.

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Mais de dois séculos depois, muita coisa mudou. Mas basta abrir Orgulho e Preconceito, Razão e Sensibilidade, Emma ou Persuasão para perceber algo curioso: algumas das inquietações de suas personagens continuam bastante familiares.

Austen escreveu sobre mulheres que precisam escolher entre aquilo que esperam delas e aquilo que desejam para si. Falou de dinheiro, casamento, reputação, família, julgamentos, aparências e diferenças sociais. E fez isso com uma ironia que continua funcionando muito bem.

Talvez seja justamente por isso que mulheres de diferentes gerações ainda encontrem alguma coisa de si mesmas em suas páginas.

Jane Austen ensina a desconfiar das primeiras impressões

Elizabeth Bennet, protagonista de Orgulho e Preconceito, é inteligente, espirituosa e segura das próprias opiniões. O problema é que também pode estar errada.

Ao longo da história, Elizabeth precisa rever julgamentos que parecia ter certeza de que estavam corretos. Darcy também precisa enfrentar o próprio orgulho.

Não é apenas uma história de amor. É uma história sobre a dificuldade de enxergar o outro sem deixar que nossas expectativas, preconceitos e primeiras impressões decidam tudo.

Em tempos de redes sociais, em que perfis são analisados em segundos e vidas inteiras parecem caber em algumas fotografias, Austen talvez esteja mais atual do que imaginamos.

Suas personagens mostram que casamento não deveria significar aceitar qualquer coisa

Os romances de Austen estão cheios de casamentos. Isso não significa que sua mensagem seja simplesmente encontrar um marido.

Para muitas mulheres da Inglaterra de seu tempo, casar era também uma questão econômica. Sem patrimônio próprio e com poucas possibilidades profissionais, um bom casamento podia representar sobrevivência.

É justamente dentro dessa realidade que Austen constrói mulheres capazes de dizer não.

Elizabeth Bennet recusa propostas que poderiam lhe proporcionar segurança porque não considera aquelas relações adequadas para sua vida. Anne Elliot, de Persuasão, precisa aprender a reconhecer o peso que a opinião dos outros teve sobre uma decisão importante de sua juventude.

São conflitos escritos no século 19 que ainda provocam uma pergunta bastante contemporânea: quantas escolhas fazemos porque realmente queremos e quantas fazemos para corresponder ao que esperam de nós?

A própria vida de Austen torna essa questão ainda mais interessante. Sua trajetória aconteceu em um período no qual permanecer solteira significava também enfrentar limitações financeiras e sociais importantes para uma mulher.

Austen também escreveu sobre dinheiro

Existe romance, mas existe boleto. Ou, no caso de Jane Austen, renda anual, propriedades e heranças. Dinheiro aparece o tempo inteiro em seus livros porque determinava boa parte das possibilidades das mulheres.

A posição financeira de um homem podia definir se ele era considerado um bom partido. A falta de recursos podia deixar uma mulher vulnerável. As regras de herança podiam colocar famílias inteiras em situação delicada.

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Ao colocar essas questões dentro de suas histórias, Austen mostra que relacionamentos nunca acontecem completamente separados da realidade econômica.

Essa leitura também ajuda a perceber por que independência financeira continua sendo uma questão tão importante para as mulheres.

Suas mulheres não são perfeitas. Ainda bem

Talvez uma das melhores razões para ler Jane Austen depois dos 40 ou 50 anos seja encontrar personagens que erram. Elas julgam mal, se apaixonam pela pessoa errada, deixam-se influenciar, são orgulhosas, inseguras, impulsivas ou excessivamente confiantes.

Emma Woodhouse, por exemplo, acredita compreender tão bem as pessoas ao seu redor que começa a interferir na vida amorosa delas. Aos poucos, descobre que sua capacidade de interpretar sentimentos não era exatamente infalível.

Marianne Dashwood, de Razão e Sensibilidade, vive as emoções com intensidade e precisa lidar com as consequências de suas expectativas.

Não são heroínas construídas para dar exemplo o tempo inteiro. São mulheres aprendendo.E talvez seja exatamente isso que permita que continuem tão próximas das leitoras.

Seis romances que atravessaram dois séculos

Jane Austen deixou seis romances completos: Razão e Sensibilidade, Orgulho e Preconceito, Mansfield Park, Emma, A Abadia de Northanger e Persuasão. Os dois últimos foram publicados depois de sua morte.

Ela também deixou outros escritos e trabalhos inacabados, entre eles Sanditon, iniciado no último ano de sua vida. Austen morreu em 18 de julho de 1817, em Winchester, aos 41 anos.

Durante sua vida, seus livros sequer eram publicados com seu nome. Razão e Sensibilidade, lançado em 1811, apareceu identificado como obra escrita “por uma dama”. Somente depois de sua morte seu irmão Henry revelou publicamente que Jane Austen era a autora dos romances.

A mulher que escreveu tanto sobre as limitações impostas às mulheres também precisou escrever dentro delas.

Ler Jane Austen depois dos 40 pode ser outra experiência

Um livro não muda. A leitora, sim.

É possível ler Orgulho e Preconceito aos 18 anos e acompanhar principalmente Elizabeth e Darcy. Aos 40, talvez a atenção se volte para as escolhas, para o dinheiro, para as relações familiares ou para tudo aquilo que as personagens deixam de dizer. Aos 50, avaliasse escolhas, descobertas, aceitação e limitações.

Persuasão pode ser ainda mais interessante para quem já acumulou algumas décadas de vida. Sua protagonista, Anne Elliot, tem 27 anos, idade considerada avançada para os padrões matrimoniais daquele período, e reencontra um amor que havia deixado para trás anos antes.

O romance fala sobre arrependimento, amadurecimento, influência familiar e segunda chance. Sobretudo, fala sobre perceber que uma decisão tomada no passado não precisa determinar todo o futuro.

Há também uma boa dose de ironia

Quem imagina Jane Austen como uma escritora apenas romântica pode se surpreender.

Ela observava comportamentos sociais com atenção e transformava vaidade, interesse, pretensão e hipocrisia em humor. Seus personagens inconvenientes são tão reconhecíveis que, com pequenas adaptações, provavelmente sobreviveriam muito bem em um grupo de WhatsApp.

Talvez Austen não conhecesse o Instagram, os aplicativos de relacionamento ou aquela parente que acompanha a vida de todo mundo pelas redes sociais. Mas conhecia muito bem a necessidade humana de impressionar, julgar e cuidar da vida alheia.

E isso envelheceu muito pouco.

Por qual livro começar?

Para quem nunca leu Jane Austen, Orgulho e Preconceito costuma ser uma boa porta de entrada. A história de Elizabeth Bennet e Mr. Darcy reúne romance, humor, conflitos familiares, dinheiro e diferenças sociais.

Razão e Sensibilidade acompanha duas irmãs com maneiras diferentes de lidar com sentimentos e escolhas. Emma traz uma protagonista cheia de certezas que precisa aprender a reconhecer os próprios erros.

Persuasão pode tocar especialmente quem gosta de histórias sobre amadurecimento e recomeços.

Não é preciso ler Jane Austen porque ela está na lista dos grandes nomes da literatura. Nem para dizer que leu um clássico.

Vale lê-la porque, por trás dos vestidos, bailes, propriedades e regras sociais de outra época, existem mulheres tentando descobrir quanto da própria vida realmente lhes pertence. E essa pergunta ainda não perdeu a validade.