Empresária de Chapecó, Bárbara Paludo, enfrentou perdas, criou quatro filhos e se tornou pioneira feminina na construção civil em Santa Catarina, liderando empresas e projetos que marcaram o setor.

O que leva uma mulher a seguir em frente quando a vida muda de rumo de forma tão brusca?

A história de Bárbara Paludo ajuda a responder essa pergunta. Empresária, pioneira na construção civil catarinense e referência no setor, ela atravessou perdas, crises econômicas e decisões difíceis para construir uma trajetória que ajudou a marcar a indústria da construção em Santa Catarina.

Casas são construídas para serem fortalezas, lugares de segurança e estruturas sólidas. Algumas pessoas também. Como descreveu a jornalista e historiadora Mônica Haas ainda na década de 1980, Bárbara ficou conhecida como a “dama de ferro” da construção chapecoense.

A trajetória empresarial começou há cerca de 50 anos. Ao longo desse período, ela fundou três empresas, participou da construção de mais de seis mil unidades habitacionais e chegou a liderar cerca de 600 funcionários em um único momento.

Hoje, atua como investidora no Brasil e na Itália, participa de entidades do setor e é conselheira suplente do Instituto Euvaldo Lodi de Santa Catarina (IEL/SC), ligado ao sistema FIESC.

Mesmo depois de entregar o comando da construtora para os filhos, não se reconhece na ideia de aposentadoria. Para ela, a palavra simplesmente não faz sentido.

Infância entre trabalho e estudo

Bárbara nasceu em Barra do Leão, no município de Campos Novos, em Santa Catarina. A infância foi dividida entre o trabalho na roça e a vontade de estudar.

O pai acreditava que mulher não precisava frequentar a escola. Para conseguir autorização, ela fez um acordo: trabalhava meio período e, no outro, atravessava o Rio do Leão e caminhava cerca de sete quilômetros para assistir às aulas.

Quando o “não” parecia definitivo, ela buscava outra saída. A professora chegou a visitar a casa da família aos domingos para conversar com o pai e tentar convencê-lo da importância dos estudos.

“Eu já fazia negócios com oito ou nove anos para poder estudar”, lembra.

Conseguiu estudar até a quinta série.

A perda que mudou o rumo da história

A mudança para Chapecó marcou o início de um novo capítulo. Bárbara, o marido Luís Paludo e os quatro filhos, Luiz Alberto, Augusto Fernando, Lusiane e Leciane, decidiram recomeçar a vida na cidade. A família investiu em um caminhão frigorífico para atender a Sadia.

Bárbara conta que ajudou a comprar o primeiro caminhão com o próprio trabalho.

Pouco tempo depois da mudança, porém, a vida trouxe um golpe difícil. O marido começou a adoecer e foi diagnosticado com câncer linfático. O tratamento foi feito em Porto Alegre, mas ele não resistiu.

“Um mês após nos mudarmos para Chapecó, meu marido começou a adoecer. Fomos para Porto Alegre, tentamos tudo o que pudemos, mas infelizmente o organismo dele não conseguiu superar a doença. Íamos recomeçar nossa vida quando aconteceu essa tragédia”, relembra.

Viúva e com quatro filhos pequenos, Bárbara decidiu assumir o comando do negócio.

“Decidi arregaçar as mangas e ir à luta. Ninguém ia trazer feijão e arroz para meus filhos.”

Sem experiência no transporte, ela se reuniu com o motorista da empresa e explicou que precisava aprender. O combinado foi continuar o trabalho com base em confiança e responsabilidade.

Entre acidentes e decisões difíceis

Depois de algum tempo, Bárbara vendeu o primeiro caminhão, comprou dois novos e mandou instalar câmaras frigoríficas para ampliar o negócio.

Nem todos os momentos foram fáceis. Em um acidente na rodovia, um dos caminhões tombou e o motorista morreu. O filho mais velho tinha apenas dez anos quando acompanhou a mãe para retirar o veículo do local.

“Perguntavam para mim como eu lidava com tudo aquilo, sendo mãe e empresária. Eu rasgava a fronha do travesseiro à noite, pedindo a Deus força para continuar no outro dia”, conta.

Alguns anos depois, ela decidiu mudar de rumo. Vendeu os caminhões e abriu uma loja de cortinas e decoração próxima à Imobiliária Markize, em Chapecó.

Foi ali que a construção civil entrou em sua vida.

Primeiro surgiu a oportunidade de se tornar sócia da imobiliária com 10% de participação. Os outros 90% foram conquistados com trabalho intenso. Em apenas um ano, o setor de locação cresceu 130%.

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Quando tentaram alterar o contrato e reduzir sua participação, ela tomou uma decisão rápida: saiu da sociedade.

No dia 4 de junho de 1981 fundou a Katedral Imóveis, atual KA Empreendimentos. Segundo ela, foi a primeira mulher a fundar uma construtora em Santa Catarina.

Construindo casas e enfrentando crises

O recomeço foi imediato. Bárbara vendeu um apartamento em Concórdia e comprou uma área no bairro Vila Real, em Chapecó.

A primeira obra foi a construção de 50 casas. Depois vieram outros projetos, como 101 unidades destinadas à Polícia Militar e um grande conjunto com 400 casas em Lages.

Durante o governo Collor, porém, a economia brasileira atravessava um período turbulento. Os juros eram altos e a Caixa Econômica atrasava pagamentos de financiamentos habitacionais.

A empresa entrou em concordata. Mesmo assim, todas as casas foram entregues.

“Primeiro paguei os funcionários, porque eles tinham família. Depois fui acertando com cada fornecedor. Paguei muitas dívidas com lotes, porque dinheiro não tinha.”

Sucessão e novos caminhos

Mesmo após transferir o comando da construtora para os filhos, Bárbara não deixou de empreender.

Criou a Habitacom Investimentos em sociedade com Márcio Vaccaro, voltada à compra e ao desenvolvimento de áreas urbanas. Também estruturou uma holding familiar para organizar a sucessão e garantir continuidade ao patrimônio construído ao longo das décadas.

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Para ela, a continuidade do negócio também nasce de um aprendizado familiar. Depois da morte do pai, os filhos cresceram acompanhando de perto a rotina de trabalho e o peso das decisões.

“Eles aprenderam cedo que as coisas não caem do céu. É preciso correr atrás.”

Ao olhar para a própria trajetória, Bárbara reconhece que cometeu erros ao longo do caminho, como assumir projetos grandes em momentos de instabilidade econômica.

Mesmo assim, diz que nunca pensou em desistir.

“Erro serve para aprender, não para desistir.”