Oito anos depois de começar a vender bolos, Angela inicia uma nova fase, amplia o cardápio e
planeja transformar a confeitaria em espaço de encontros e histórias.

Há alguns anos, Angela Padilha dos Santos não imaginava até onde uma sugestão da filha poderia levá-la. O que começou como uma forma de complementar a renda ganhou clientes, ocupou espaço na rotina e se transformou em um projeto para o futuro.

A história começou em 2018. Depois da separação, Angela buscava uma renda extra e chegou a produzir feijoadas. O trabalho era grande e, como ela também gostava de fazer bolos, uma das filhas sugeriu que começasse a vendê-los. Angela duvidou que alguém fosse comprar. Até preparar um bolo para um jantar entre amigas. Vieram as primeiras encomendas e nasceu a Hoje é Dia de Bolo.

Quando sua história foi contada pela primeira vez no Minha Vida Magnólia, Angela também começou a olhar de outra maneira para as trajetórias de outras mulheres. Passou a acompanhar com mais atenção cada nova história publicada e percebeu algo que hoje considera importante: por trás de cada mulher existem dificuldades, escolhas, recomeços e muito para contar.

“Comecei a entender melhor as histórias das mulheres e a querer saber as histórias delas. Isso ficou muito lindo na minha vida também, porque me deu mais força para continuar”, conta.

Oito anos depois, muita coisa mudou. Inclusive o nome. A confeitaria agora é Bolos e Prosas, marca que Angela construiu ao lado das filhas, Fer e Gabi, e que representa melhor o momento atual do negócio.

A mudança começou por uma necessidade. Quando tentou registrar Hoje é Dia de Bolo, Angela descobriu que havia outro estabelecimento com nome semelhante. Poderia recorrer, mas decidiu procurar uma nova identidade. A escolha não foi rápida. A família levou quase um ano até chegar a Bolos e Prosas. Hoje, a marca está registrada e, segundo Angela, também combina mais com os projetos que pretende colocar em prática.

::: Leia a primeira reportagem >>> Hoje é dia de bolo, Angela?

Bolo, café e tempo para conversar

Se o primeiro nome dizia o que Angela fazia, o novo parece dizer um pouco mais sobre como ela enxerga seu trabalho.

“Queremos que a pessoa sente, deguste o bolo e converse, proseie. Que aproveite mais os momentos e transforme algo simples em inesquecível, com um bolo e uma boa prosa”, explica.

Para Angela, Bolos e Prosas representa também a possibilidade de construir uma vida com mais autonomia. A confeitaria ainda é seu plano B, mas ela espera que, no futuro, se torne o plano A.

É um sonho que, segundo ela, permite imaginar uma rotina na qual possa organizar seus próprios horários, trabalhar, entregar as encomendas e também encontrar tempo para sentar e tomar um café com as filhas, a mãe, a família ou as amigas.

Mas existe muito trabalho antes de o bolo chegar bonito à mesa.

Há dias em que a rotina começa às 5h30 e termina perto da meia-noite. São horas em pé, planejamento, compras, ingredientes que precisam chegar ao ponto certo e imprevistos que precisam ser considerados antes mesmo de acontecerem. Angela conta que procura trabalhar com antecedência para conseguir lidar até com uma eventual falta de energia ou com uma receita que não saia como esperado.

E há uma verdade que ela conta com bom humor: nem sempre existe bolo na casa da confeiteira.

Aprender a continuar

Os oito anos de confeitaria também ensinaram Angela sobre uma parte menos visível do empreendedorismo. Nem sempre existe certeza antes de tomar uma decisão e nem tudo acontece conforme o planejado.

“Às vezes a gente tem medo e vai ter que ir com medo mesmo”, afirma. Para ela, empreender também significou aprender a confiar mais em si mesma e na própria intuição. Algumas ideias planejadas durante meses podem não funcionar, enquanto outras, colocadas em prática quase imediatamente, surpreendem pelo resultado.

“É muito da tua intuição, de conhecer a tua ideia. Mas sempre confiar em você e nunca desistir. E também não achar que vai ser fácil, porque não é fácil.”

Isso não significa que nunca tenha pensado em parar. Angela lembra de momentos em que uma encomenda não saiu como gostaria ou em que alguma dificuldade a fez questionar se valia a pena continuar.

Curiosamente, muitas vezes a resposta chegava pela própria clientela. Uma nova encomenda, um elogio inesperado ou alguém dizendo que estava com vontade de comer o bolo dela eram suficientes para renovar o ânimo.

“Sempre a próxima encomenda é o que faz a gente continuar”, resume.

Quando um bolo vira memória

Entre tantas encomendas feitas ao longo dos anos, algumas ajudaram Angela a entender que seu trabalho pode ocupar um lugar muito maior na vida das pessoas.

Uma delas foi o pedido de uma filha cuja mãe estava nos últimos dias de vida. Ela queria um bolo de fubá, um sabor que trazia lembranças da própria mãe. Com autorização médica, Angela preparou o bolo.

Depois, recebeu uma mensagem que não esqueceu: aquele sabor havia levado a cliente de volta à infância.

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Outra história recente também ficou guardada. Uma mulher juntou dinheiro para comprar o bolo de aniversário do marido. Depois de cerca de 30 anos de casamento, era a primeira vez que conseguia pagar, com o próprio dinheiro, um bolo para presenteá-lo. Angela chegou a se oferecer para dar o bolo, mas ela não aceitou. Queria fazer aquela compra.

“Ela fazia questão porque tinha juntado o dinheiro para poder dar esse presente para ele. Aquilo me tocou demais”, lembra.

Histórias assim explicam por que Angela diz que não quer entregar apenas um bolo bonito e saboroso.

“Eu faço questão de entregar uma experiência. Quero que a pessoa viva aquele momento e, muitas vezes, volte para a infância, quando saboreava um doce sem culpa nenhuma.”

Essa memória afetiva também aparece nos retornos dos clientes. Angela conta que se emociona quando alguém diz que o bolo lembra uma receita feita pela mãe, pela avó ou por uma tia.

Para chegar a esse resultado, ela mantém uma escolha que considera parte da identidade da Bolos e Prosas: as receitas são preparadas desde o início. Não utiliza massas ou recheios prontos ou congelados.

“Quando dizem que o meu bolo fez lembrar uma avó, uma tia, uma mãe ou a infância, para mim isso é tudo.”

Novos sabores e novos planos

A mudança de nome também chega acompanhada de novidades. A Bolos e Prosas ampliou as opções de bolos integrais e mais leves, passou a trabalhar com novos produtos salgados e está apostando nos minibolos individuais, inclusive para aniversários.

Ao observar o comportamento dos clientes ao longo desses anos, Angela também percebeu que as pessoas não procuram apenas um produto. Querem qualidade, mas também querem guardar uma lembrança daquele momento.

“Empreender me ensinou que, cada vez mais, os clientes procuram momentos inesquecíveis e produtos de qualidade. E que a minha maior motivação é sempre acreditar em mim”, afirma.

Mas os planos de Angela vão além do cardápio.

Um dos projetos é promover encontros mensais em torno da mesa, convidando pessoas para compartilhar suas histórias enquanto tomam café e comem bolo. A ideia já vem sendo conversada há mais de um ano com as filhas e uma afilhada.

Angela imagina uma mesa simples, preparada para receber pessoas, conversar sobre vida pessoal, trabalho, escolhas e experiências.

Mais adiante, outro sonho aparece: ter um café físico, onde possa receber quem quiser chegar para um bolo, um café, um chá, um suco e, claro, uma boa prosa.

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Os planos mostram o tamanho da mudança desde aquela primeira encomenda de 2018. O bolo continua no centro da história, mas hoje carrega outras possibilidades.

E se Angela pudesse voltar no tempo e conversar com aquela mulher que começou sem saber se alguém compraria seus bolos, a mensagem seria simples: “Continua e confia em você”.

Talvez esteja aí a receita que permaneceu durante todos esses anos. Mudaram o nome, o cardápio, os projetos e os sonhos. Mas ficou a vontade de continuar.

Hoje, quando precisa definir a Bolos e Prosas em poucas palavras, Angela não fala em empresa, produto ou confeitaria.

Ela prefere dizer:

“É um sonho realizado. O meu doce sonho.”