Depois de perder os pais com 11 dias de diferença na pandemia, Valéria Aparecida Andrade encontrou na escrita um caminho para transformar o luto em propósito.

Há dores que dividem a vida entre antes e depois. Para Valéria Aparecida Andrade, 41 anos, escritora, palestrante e consultora empresarial, essa linha foi traçada durante a pandemia da Covid-19.

Seus pais contraíram o vírus e não resistiram. Morreram com apenas 11 dias de diferença. Primeiro, o pai, que ainda estava na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Depois, a mãe, que já havia deixado a UTI e estava no quarto se recuperando.

Valéria estava ao lado dela no momento da partida.

Enquanto enfrentava a possibilidade de perder os dois pais, havia ainda outro medo. Seu marido também estava com Covid-19 e em estado grave. Ele conseguiu se recuperar e voltar para casa.

Não havia como atravessar tudo aquilo e continuar olhando para a vida da mesma maneira.

“Hoje sou alguém que enfrenta os desafios escolhendo olhar mais para a fé do que para o medo”, conta Valéria.

A experiência mudou prioridades, valores e a maneira como ela passou a enxergar o tempo. Família, vida, presença e legado ganharam outros significados.

“Passei a priorizar a família, o dom da vida e como viver os nossos dias, e não apenas sobreviver no automático, pois nunca sabemos qual será nossa hora de partir. E qual legado vamos deixar.”

Quando a própria dor começou a ajudar outras pessoas

A ideia de escrever não surgiu imediatamente como uma carreira ou um projeto profissional. Antes do livro, vieram as conversas.

Depois do que havia vivido, Valéria começou a receber telefonemas de pessoas que também atravessavam momentos difíceis. Amigos indicavam conhecidos que estavam enfrentando situações parecidas e acreditavam que ela poderia ajudá-los.

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“[A escrita] surgiu como um propósito, na verdade, de transformar em ‘algo bom’ tudo o que passei.”

Mas escrever também mexeu com feridas que ainda precisavam ser cuidadas.

“De certa forma, penso que foi uma escrita terapêutica. Em cada parágrafo liberei o que ainda não estava bem resolvido dentro de mim.”

O projeto nasceu com a intenção de se tornar um livro, mas transformar sentimentos tão profundos em palavras não foi simples.

Assim, de conversa em conversa, percebeu que sua experiência poderia alcançar outras pessoas. Nasceu o desejo de colocar no papel aquilo que havia vivido e aprendido.

Havia dias em que Valéria sabia exatamente o que desejava dizer, mas, diante da página, as palavras simplesmente não chegavam.

Foram quase dois anos até concluir a obra.

“Em alguns momentos eu sabia o que gostaria de dizer, mas me sentia travada. Quando sentava para escrever, as palavras não vinham. Mas penso que tudo acontece no tempo certo.”

Uma palavra italiana para falar de travessias

O título escolhido para o livro carrega outra parte importante da história de Valéria.

Attraversiamo é uma palavra italiana que significa, segundo a autora, “vamos atravessar juntos”.

Valéria é trineta de italiano e mantém uma relação próxima com essa herança familiar. Participa de um grupo de Filó em sua cidade, preservando costumes e tradições transmitidos entre gerações.

Ao procurar um nome para a obra, encontrou nessa ancestralidade também uma metáfora para sua própria história.

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Ela lembra daqueles que, gerações antes dela, atravessaram o desconhecido em busca de uma vida melhor, levando consigo coragem, determinação, cultura e tradições que chegariam aos descendentes.

Agora, a travessia assumia outro significado.

“Attraversiamo significa ‘vamos atravessar juntos’ em italiano, nos trazendo a ideia de que nunca estamos sozinhos em nossos desafios da vida. Temos sempre Deus caminhando conosco.”

Para Valéria, a palavra também carrega movimento. “Quando estamos atravessando algo, não podemos parar. É preciso seguir, continuar até que a tempestade passe.”

É justamente essa ideia que conduz o livro. A autora define Attraversiamo como um convite para transformar desafios e dores em uma travessia conduzida pela fé e pela coragem.

A narrativa parte de uma experiência real. Valéria escreve a partir da perda dos pais, do medo vivido durante a doença do marido e da própria reconstrução emocional.

Não como alguém que observou a dor do lado de fora, mas como quem esteve dentro dela.

Do luto às páginas de um livro

Quando olha para o caminho percorrido, Valéria não fala apenas sobre o livro que conseguiu escrever. Fala sobre a mulher que se tornou depois de tudo aquilo.

A escrita ajudou a dar forma a sentimentos que, muitas vezes, existiam dentro dela sem que soubesse exatamente o que fazer com eles.

“Poder transformar em palavras o que às vezes a gente tem em mente, mas não sabe o que fazer”, resume.

Hoje, Attraversiamo representa também a concretização de um propósito: fazer com que sua experiência possa chegar a alguém que esteja no meio da própria tempestade.

“Representa uma conquista, uma satisfação em realizar o meu propósito, que é, através dele, ajudar outras pessoas em suas travessias.”

O nascimento de Attraversiamo

Esse caminho ganhou um capítulo especial quando Valéria levou Attraversiamo à Bienal Internacional do Livro de São Paulo.

A participação foi possível por meio da editora responsável pela publicação, que esteve no evento acompanhada de autores para lançamentos e sessões de autógrafos.

Para quem levou quase dois anos transformando lembranças, ausência, fé e reconstrução em palavras, ver o livro finalmente diante dos leitores teve um significado particular.

“É um sentimento de muita gratidão e emoção poder lançar meu livro lá, sentir a receptividade das pessoas e trocar experiências com outros autores de vários assuntos.”

Valéria compara a chegada da obra ao mundo ao nascimento de um filho. “Para mim, ver ‘meu filho’ nascendo lá é extraordinário.”

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Agora, depois de tanto escrever sobre atravessar, ela quer viver aquilo que nasceu dessa travessia. Há planos para continuar escrevendo e, no futuro, desenvolver um novo projeto. Mas não há pressa.

Antes disso, Valéria quer “viver o Attraversiamo”.

Talvez essa escolha diga muito sobre a mulher que surgiu depois daqueles dias difíceis. A Valéria de hoje fala menos sobre passar rapidamente pelas experiências e mais sobre estar presente nelas. Sobre reconhecer que algumas travessias deixam marcas, mudam caminhos e reorganizam prioridades.

Ela não pôde escolher a dor que chegou à sua família. Mas pôde escolher o que faria depois dela. E escolheu escrever.