Psicóloga perinatal Rafaela Schiavo explica quando procurar ajuda e destaca estudo que relaciona o tratamento da depressão na gestação ao desenvolvimento cerebral do bebê.

A gravidez costuma ser associada à felicidade, à expectativa pela chegada do bebê e à preparação para uma nova fase da vida. Mas nem sempre é assim. Para algumas mulheres, esse período também pode ser marcado por tristeza persistente, ansiedade, irritabilidade, culpa e exaustão emocional. Sentimentos que muitas vezes são silenciados pelo medo de julgamento ou confundidos com mudanças naturais da gestação.

Embora a depressão seja frequentemente associada ao período após o nascimento do bebê, os primeiros sintomas podem surgir ainda durante a gravidez e continuar no pós-parto. Reconhecer esses sinais e buscar acompanhamento profissional pode fazer diferença na saúde da mulher e no desenvolvimento da criança.

Segundo Rafaela Schiavo, psicóloga perinatal e fundadora do Instituto MaterOnline, muitas mulheres chegam ao pós-parto apresentando dificuldades emocionais que já estavam presentes antes do nascimento.

“Grande parte das mulheres que apresentam problemas de saúde mental no puerpério já estava apresentando sinais desde a gestação. Se a gente começasse a cuidar da saúde mental das mulheres nesse período, diminuiria muito as chances de esses problemas se manterem ou se agravarem no pós-parto”, afirma.

Estudo relaciona tratamento da depressão ao desenvolvimento cerebral do bebê

Uma pesquisa publicada em 16 de outubro de 2026 na revista científica Nature Communications reforça a importância da atenção à saúde mental durante a gestação.

O estudo acompanhou 109 bebês de mulheres que participaram de uma pesquisa clínica sobre tratamento da depressão na gravidez, realizada originalmente com 234 gestantes.

As participantes que receberam uma modalidade breve de psicoterapia interpessoal apresentaram redução dos sintomas depressivos. Entre seus bebês, os pesquisadores identificaram um volume menor do hipocampo direito, região cerebral relacionada à memória, à aprendizagem e à regulação emocional, em comparação com os filhos das mulheres que receberam cuidados habituais ampliados.

Os pesquisadores também observaram uma associação entre menor volume do hipocampo e menor manifestação de emoções negativas nos bebês aos seis meses de idade.

Os resultados, porém, não significam que um hipocampo menor seja necessariamente melhor ou que o tratamento garanta benefícios ao desenvolvimento cerebral. Os próprios autores destacam que ainda não se sabe se essas diferenças permanecem ao longo da infância ou quais serão suas consequências futuras.

A pesquisa amplia o conhecimento sobre a relação entre saúde mental materna e desenvolvimento infantil, além de reforçar a necessidade de investigar os possíveis efeitos das intervenções psicológicas durante a gravidez.

Nem todo sofrimento emocional é uma mudança normal da gravidez

A gestação envolve transformações físicas, hormonais, emocionais e sociais. É natural que a mulher experimente momentos de insegurança, preocupação e cansaço. Entretanto, quando essas manifestações se tornam intensas, persistentes ou prejudicam a rotina, precisam ser avaliadas.

Para Rafaela, o acompanhamento psicológico deve ser considerado parte dos cuidados com a saúde da gestante, assim como as consultas e os exames realizados durante o pré-natal.

Um dos desafios está justamente em reconhecer que a gravidez não precisa ser vivida como um período de felicidade permanente.

A expectativa de que toda mulher esteja realizada com a maternidade pode dificultar a identificação do sofrimento emocional. Em alguns casos, a gestante evita falar sobre o que sente porque acredita que será considerada ingrata, incapaz ou despreparada para ser mãe.

Esse silêncio pode atrasar a procura por atendimento e prolongar sintomas que poderiam ser tratados.

Cinco dúvidas sobre a depressão durante a gravidez

1. A depressão pós-parto pode começar antes do nascimento do bebê?

Sim. Em muitos casos, os sintomas aparecem durante a gestação e permanecem depois do parto. Por isso, profissionais de saúde utilizam o termo depressão perinatal, que considera tanto o período da gravidez quanto o pós-parto.

2. Quais sintomas merecem atenção?

Entre os principais sinais estão tristeza persistente, crises frequentes de choro, ansiedade intensa, culpa excessiva, irritabilidade, isolamento social, sensação de incapacidade, alterações importantes no sono ou no apetite e perda de interesse por atividades que antes proporcionavam prazer.

Sentimentos de desesperança e dificuldade para realizar tarefas cotidianas também merecem avaliação.

3. Toda gestante que sente tristeza está com depressão?

Não. Momentos de tristeza, medo e insegurança podem fazer parte da experiência da gravidez. A preocupação aumenta quando essas emoções se tornam frequentes, intensas ou começam a interferir na rotina, no autocuidado, nos relacionamentos e no acompanhamento pré-natal.

O diagnóstico deve ser realizado por um profissional de saúde habilitado.

4. Por que algumas mulheres demoram para pedir ajuda?

A idealização da maternidade ainda faz com que muitas gestantes sintam vergonha de admitir que não estão emocionalmente bem.

O receio de serem julgadas, a dificuldade de reconhecer os sintomas e a falta de uma rede de apoio podem contribuir para que enfrentem o sofrimento sozinhas.

5. O que pode ajudar na prevenção e no cuidado?

A avaliação psicológica durante o pré-natal pode contribuir para identificar fatores de risco, reconhecer sintomas iniciais e orientar o acompanhamento adequado.

O apoio da família, do parceiro e das pessoas próximas também é importante, especialmente quando envolve escuta, acolhimento e divisão das responsabilidades cotidianas.

Quando procurar ajuda profissional?

A orientação é buscar atendimento sempre que o sofrimento emocional se tornar persistente, intenso ou interferir na qualidade de vida.

A gestante pode conversar inicialmente com o profissional responsável pelo pré-natal e, quando necessário, receber encaminhamento para acompanhamento psicológico ou psiquiátrico.

A Caderneta Brasileira da Gestante, do Ministério da Saúde, também orienta procurar um serviço de saúde diante de tristeza intensa, ansiedade constante, isolamento, culpa excessiva, desesperança e mudanças importantes de comportamento. Pensamentos de automutilação ou de desvalorização da vida exigem atenção imediata.

Nessas situações, a mulher não deve permanecer sozinha e precisa de avaliação urgente. O atendimento pode ser procurado em um serviço de emergência, com acionamento do Samu pelo telefone 192 quando necessário.

O tratamento deve ser individualizado e pode incluir psicoterapia, acompanhamento por uma equipe de saúde e, em determinadas situações, medicamentos avaliados pelo médico responsável. Mulheres que já fazem tratamento não devem suspender medicamentos por conta própria durante a gravidez.

Cuidar da mãe também é cuidar do bebê

Para Rafaela Schiavo, a saúde mental precisa receber atenção desde o início do pré-natal, sem que a mulher tenha de esperar o agravamento dos sintomas para buscar ajuda.

“Os problemas de saúde mental nesse período são muito frequentes. Por isso, toda mulher deveria passar por uma avaliação psicológica durante a gravidez”, avalia.

A gravidez não elimina as dificuldades emocionais, assim como o amor pelo bebê não impede que uma mulher desenvolva depressão.

Reconhecer o sofrimento e oferecer cuidado é também uma maneira de respeitar a experiência de cada gestante. Afinal, antes de existir uma mãe, existe uma mulher que também precisa ser ouvida, acolhida e cuidada.

Fonte científica: Nature Communications, estudo publicado em 16 de outubro de 2026. Informações complementares: Ministério da Saúde e psicóloga perinatal Rafaela Schiavo.