
Especialista em neuroaprendizagem alerta que o excesso de responsabilidades pode comprometer a atenção, a memória e o bem-estar feminino e orienta sobre a importância da estimulação cognitiva.
Cuidar dos filhos, acompanhar os pais idosos, administrar a casa, cumprir compromissos profissionais e ainda encontrar tempo para si. Para muitas mulheres, essa rotina se tornou tão comum que o cansaço mental acaba sendo tratado como parte inevitável da vida. Mas será que estamos dando ao cérebro a mesma atenção que dedicamos ao restante do corpo?
A chamada geração sanduíche, formada por adultos que precisam conciliar os cuidados com filhos e pais idosos, enfrenta um desafio que vai além da falta de tempo. A sobrecarga de responsabilidades pode afetar a concentração, a memória, a organização das tarefas e o equilíbrio emocional.
Segundo a especialista em neuroaprendizagem Patrícia Lessa, parte desse desgaste está relacionada à sobrecarga das chamadas funções executivas do cérebro.
“Essas funções são responsáveis por coordenar atividades como atenção, regulação emocional, planejamento e organização entre outras. São questões que, tradicionalmente, ainda recaem sobre a mulher levando a esse esgotamento mental que, muitas vezes, pode paralisar e adoecer”, explica.
Por que a sobrecarga mental afeta tanto as mulheres?
As funções executivas permitem que o cérebro organize informações, estabeleça prioridades, tome decisões e administre diferentes atividades ao longo do dia.
Quando uma mulher precisa lembrar de consultas médicas, organizar compromissos familiares, resolver questões domésticas e atender às exigências profissionais, essas habilidades são constantemente utilizadas.
O problema não está em realizar várias atividades, mas na ausência de períodos adequados de descanso e na distribuição desigual das responsabilidades.
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Com o tempo, a sobrecarga pode contribuir para dificuldades de concentração, esquecimentos, irritabilidade, alterações no sono e sensação persistente de esgotamento.
Esses sintomas não significam necessariamente perda de capacidade cognitiva. Fatores como estresse, privação de sono, ansiedade e mudanças hormonais também podem interferir no funcionamento da memória e da atenção.
O cérebro também precisa de autocuidado
Quando se fala em autocuidado, é comum pensar em alimentação equilibrada, exercícios físicos, consultas médicas ou momentos de descanso. Todas essas práticas são importantes para a saúde cerebral.
Entretanto, manter o cérebro ativo, cultivar relações sociais e reservar tempo para atividades que proporcionem prazer também fazem parte desse cuidado.
Para Patrícia Lessa, a estimulação cognitiva pode contribuir para o desenvolvimento de habilidades utilizadas no cotidiano.
“A estimulação cognitiva é uma maneira de driblar esse esgotamento, pois desenvolve habilidades cognitivas e socioemocionais importantes para a vida diária ao mesmo tempo em que permite encontros presenciais entre pares. É um momento em que essas mulheres podem se encontrar para se conectarem no momento presente e se divertirem de forma leve e agradável enquanto treinam o cérebro”, afirma.
A estimulação cognitiva envolve atividades que desafiam habilidades como memória, atenção, raciocínio e linguagem. Seus benefícios dependem do tipo de atividade, da frequência e das necessidades de cada pessoa.
É importante lembrar que essas práticas não substituem o descanso, o acompanhamento profissional ou a necessidade de reduzir a sobrecarga de responsabilidades.
Cinco hábitos que ajudam a cuidar da saúde cerebral
1. Priorize o sono. Dormir adequadamente contribui para a consolidação da memória, a concentração e a regulação emocional. Manter horários regulares e diminuir estímulos antes de dormir pode ajudar.
2. Movimente o corpo. Caminhadas, dança, pilates e outras atividades físicas favorecem a circulação sanguínea e contribuem para a saúde do cérebro.
3. Aprenda algo novo. Estudar um idioma, tocar um instrumento, participar de oficinas ou desenvolver uma habilidade estimula diferentes processos cognitivos.
4. Cultive as relações sociais. Conversar, participar de grupos e compartilhar experiências ajuda a combater o isolamento e favorece o bem-estar emocional.
5. Divida responsabilidades e respeite seus limites. Cuidar da saúde cerebral também significa diminuir a sobrecarga. Pedir ajuda, estabelecer prioridades e reservar momentos de descanso são atitudes importantes.
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Quando os esquecimentos merecem atenção?
Esquecer onde deixou as chaves ou ter dificuldade de concentração em um dia cansativo pode acontecer com qualquer pessoa. Entretanto, alterações frequentes na memória, especialmente quando começam a prejudicar a rotina, merecem avaliação profissional.
Dificuldades progressivas para realizar tarefas habituais, episódios de desorientação ou mudanças importantes no comportamento não devem ser atribuídos automaticamente ao estresse ou ao envelhecimento.
A avaliação médica pode ajudar a identificar possíveis causas, incluindo problemas de sono, alterações hormonais, deficiências nutricionais e outras condições de saúde.
Cuidar de si também precisa entrar na agenda
Durante muitos anos, as mulheres foram incentivadas a colocar as necessidades da família, do trabalho e de outras pessoas à frente das próprias. Essa realidade ainda faz parte da rotina de muitas delas.
Mas o autocuidado não deve ser entendido como mais uma obrigação em uma agenda já sobrecarregada. Ele também depende de apoio, divisão de tarefas e oportunidades reais de descanso.
Cuidar do cérebro não significa apenas exercitar a memória ou aprender algo novo. Significa reconhecer os próprios limites, valorizar o descanso e compreender que a saúde mental e cognitiva merece atenção em todas as fases da vida.
Afinal, quem cuida de tantas pessoas também precisa encontrar espaço para cuidar de si.



